Foi na Feira do Livro que eu aprendi


* Deslumbramento
des.lum.bra.men.to
sm (deslumbrar+mento2) 1 Ação ou efeito de deslumbrar. 2 Ofuscação momentânea causada por uma luz muito forte. 3 Perturbação da vista ou cegueira momentânea devida a uma vertigem ou outro incômodo cerebral. 4 Assombro, fascinação, maravilha. Var: deslumbrância, deslumbre.

 

 

 

            Ao observar as crianças que chegavam, atentei às características que as diferenciavam. Algumas meninas tinham fitas de cetim no cabelo, dessas envelhecidas por um cor-de-rosa desmaiado – o que fazia parecer um impropério chamá-las de cor de rosa. Outras tinham os cabelos presos no alto da cabeça, com pomposos elásticos enfeitados por princesas de acrílico e brocal, cintilantes como toda a vida que tinham pela frente. Aquelas crianças eram diferentes até mesmo no rabo de cavalo: algumas tinham-no preso pela altura dos ombros; outras, ostentavam um penteado ereto, com ares de cigana oriental.

            Todas entravam pulando e gritando, crianças que eram, a tangenciar a educação que receberam – ou, ao menos, que deveriam ter recebido. Dividiam-se em dois grupos, inevitáveis e dicotômicas em suas características. Além da divisão óbvia entre pobres e ricas, apartavam-se também em um outro tipo de pobreza: a de empatia.

            As do primeiro grupo, sempre mais dispostas e mais saltitantes, eram, sim, as mais barulhentas e bagunceiras, o que poderia ser facilmente interpretado como falta de educação. As do segundo grupo, porém, mesmo que também gritando e saltitando, corriam com menos pressa e sorriam com menos brilho. Foi quando percebi que o elemento responsável por separá-las em dois grupos não era representado por um cifrão. Não era uma visível desigualdade social que as distanciava frente à minha observação atenta: era a esperança.

            Tainá, de 9 anos, pertencia ao primeiro grupo, e, logo que chegou perto dos livros, foi barrada pela professora que, indignada com a correria da pequena, não soube conter sua desavisada autoridade. Ao perceber sua criancice reprimida, Tainá aquietou-se num canto, contida feito adulto, a procurar refúgio na calma de um livro. O volume era cor-de-rosa – este, sim, vivo como a flor que lhe deu o nome – ilustrado e de capa dura. Foi o suficiente para crescer o brilho nos olhinhos da menina. Ela manuseava O Segredo dos Bichinhos da Floresta com cuidado e disciplina impecáveis, tamanha era a bronca que dava nos amigos que vinham cheios de mãos para cima de seu refúgio. Aquele, fingia, era só dela. Por isso é que se demorava com o livro nas mãos o mais que podia, alisando sua capa e observando todas as figuras: por saber que não seria seu, é que Tainá fingia que era. Mas a menina, ainda que apaixonada por seu porto, desancorava-se facilmente, quando lembrava que não era, ainda, dona dele. Olhava para a etiqueta de preço grudada na contracapa, a culpada por sujar sua fantasia com as cores da realidade.

            As crianças do segundo grupo pareciam desconhecer a facilidade de encantamento de Tainá, e pouco demonstravam dominar suas habilidades teatrais. Não faziam de livro nenhum seu refúgio, e tampouco aquietavam-se nos cantos – ao contrário, pareciam dominar o ambiente todo, e não somente suas arestas. A gritaria e correria eram implacáveis, e não se deixavam frear por uma simples estante colorida. Corriam os olhinhos pelos livros com muita rapidez, olhando tudo ao mesmo tempo, sem atentar para nada que não fosse excessivamente cintilante – e, proporcionalmente, caro. Sua criancice era disfarçada por uma espécie de maturidade imposta, forjada numa pressa e numa falta de concentração que não combinavam com a idade e as roupas coloridas. Pareciam conhecer todos aqueles volumes, e apenas um ou outro conseguiam segurar seu interesse escorregadio. Corriam descontrolados pelas estantes sem perceber quando derrubavam uma ou outra coisa e desorganizavam as prateleiras. Seu respaldo eram as notas de 20 e de 50, que chacoalhavam satisfeitos sempre que condicionavam seus objetos de desejo a um preço. Sem discernimento para diferenciar uma nota de cinqüenta de outra de cinco, estavam convencidos de que qualquer item ali poderia ser seu. Por isso é que se entediavam rapidamente, deslizando seus tênis-patins para outra freguesia.

            Clarissa, 8 anos, parece ter economizado fôlego a vida inteira para dizer o que disse tão rápido. Com as palavras escapando da frase, disse: “Fica olhando esse esse que eu já volto”. O que ela quis dizer, descobri mais tarde, é que ela que iria almoçar com os colegas e que logo voltaria para buscar o livro que gostou, ao mesmo tempo em que implorava para que eu o guardasse. Depois de 15 minutos, voltou, gabando-se do salgadinho de milho que comera à sombra da calçada, e caçoando da fome que eu tinha e que ela parecia ter adivinhado – “Eu almocei na árvore”, disse.

            O fato é que todas aquelas crianças – as do primeiro e as do segundo grupo –  agiam como se soubessem que poderiam ser como as princesas que protagonizam os livros, ou como os heróis a superar seus calcanhares de Aquiles. Por isso, nem se davam ao trabalho de sonhar em ser. Não desperdiçavam sonhos com obviedades, como se quisessem guardá-los para feitos um pouco mais impossíveis. Um sonho, afinal, precisa fazer jus à grandeza de sua realização.



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escrito por Renata Penzani - May 28, 2011

Acervo feito de gente


Esse texto aí embaixo foi escrito para a revista Continuum, do Instituto Itaú Cultural, seção Deadline, voltado a projetos de reportagem de estudantes de jornalismo. Oportunidade linda de conhecer pessoas igualmente lindas, como a dona “neuza-com-zê-guerreiro-de-carvalho” e o pessoal todo do Museu da Pessoa.

A versão reduzida do texto está no site da Continuum: www.itaucultural.org.br/continuum

E a reportagem está publicada na edição de janeiro/fevereiro da revista. Vale muito ler, está ótima.

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            Colecionar selos, moedas, cartas, tampinhas de garrafa. A necessidade de preservar coisas significativas é natural do ser humano. Mas nem só de numismática, filatelia e outros quiprocós semânticos é feito o colecionismo. Esses que são apenas nomes complicados para denominar uma mesma vontade, não conseguem suprir uma necessidade mais incisiva: a construção de uma memória social. Foi com essa preocupação que surgiu, em 1991, o Museu da Pessoa, acervo virtual de histórias de vida, que está aí para pontuar que a vida é passageira e que é preciso reter – se não a História inteira, ao menos alguns pedaços importantes das pequenas histórias que a compõe.

            Desde a Idade Média, quando surgiram os primeiros museus, o homem constrói sua identidade com base nas lembranças. Os museus, mais do que áreas de preservação, tornaram-se testemunhas da História que já aconteceu e ancoradouro da que ainda iria acontecer. Nesse sentido, o que pode ser mais decisivo para a construção da grande História do que as pequenas histórias? Histórias simples, como a de Ana Maria, que tinha uma galinha chama Miss Brasil, ou a de Mestre Alagoinha, que construiu a duras penas a maior biblioteca rural do Brasil. “Não tem nada mais precioso para entender o mundo do que ouvir as pessoas. É muito simples: toda história de vida é importante: desde o porteiro até o presidente da República”, facilita a historiadora Karen Worcman, fundadora do museu e maior entusiasta de sua metodologia, que o define em palavras simples: “uma metáfora do mundo narrada pelas próprias pessoas”. Mas é sob a complexa responsabilidade de resguardar anônimas narrativas sociais que funciona o museu; hoje, ele preserva um acervo de aproximadamente 12 depoimentos, 72.000 fotos e documentos e 168 projetos nas áreas de educação, comunicação, memória institucional e desenvolvimento social.

            Apesar de seus arquivos serem virtuais, o Museu da Pessoa tem sede em São Paulo. A metodologia do projeto inspirou outros países, e hoje ele tem mais três núcleos: Portugal, Canadá e Estados Unidos. O do Brasil foi o primeiro. É de um sobrado modesto da Vila Madalena que saem certezas de que a emaranhada teia da memória social está sendo bordada a pontos pequenos. Ao entrarmos lá, podemos sentir o peso da memória. Nos quadros, fotos, livros e documentos de acervo estão histórias que os jornais nunca noticiaram. Suas paredes, encharcadas de lembranças, poderiam contar sozinhas a história de um Brasil em elipse. O Museu da Pessoa é aberto a todo mundo, e seu estúdio de gravação fica disponível para qualquer pessoa que queira contar a sua história – basta agendar um horário. Sabrina, a mocinha que cuida da limpeza do museu, faz questão de frisar, num sorriso de orelha a orelha: “quem sabe um dia eu também conto a minha?”.

            Rubem Braga dizia que “os jornais noticiam tudo, mas esquecem algo fundamental que acontece todos os dias: a vida”. Talvez nem todo mundo dê valor a isso, mas é desse material humano que compõe a narrativa única da qual todos fazemos parte que é feito o Museu da Pessoa. A história da mulher que tinha uma galinha chamada Miss Brasil. O rapaz que construiu sozinho a maior biblioteca rural do Brasil. A brincadeira de amarelinha da moça que nasceu em Recife. Histórias comuns de gente anônima, que não precisam de nenhum celebritismo para integrar a memória social.

            O Museu da Pessoa prima pelo escorregadio da vida, pelo o que as lembranças têm de intangibilidade. Afinal, o que leva as pessoas a quererem contar suas histórias? Para Gustavo Ribeiro Sanchez, responsável pelo acervo do museu há 3 anos e meio, um dos motivos é a “efemeridade da existência humana, a agonia de sermos passageiros”.  Desejo de se eternizar, urgência de reflexão sobre o passado, nostalgia: são incontáveis os porquês, e, no museu da Pessoa, essas interrogações são reduzidas a uma certeza: todos eles são importantes.

É impossível ignorar, porém, que a História é uma ação que se dá no presente, e, por isso, os documentos, fotos, depoimentos em vídeo e textos transcritos do Museu não são – ainda bem! - capazes de abarcar a memória inteira. Pedaços dela ficam elípticos num olhar cabisbaixo, num estalar de dedos, em toda uma conotação corporal que fala mais do que a oralidade. “Memória não é lembrar tudo, ela é muito mais esquecimento”, filosofa Gustavo.

 

 

O que lembro, tenho

 

            “Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo”. Assim se define Irineo Funes, personagem do conto Funes, El Memorioso, de Jorge Luís Borges, que narra a agonia de um homem que se lembra de absolutamente tudo. Se o esquecimento é uma defesa para que não enlouqueçamos com nossas próprias memórias, não é por esse receio que dona Neuza, depoente do museu há mais de dez anos, deixa de relembrar suas histórias.

            Neuza Guerreiro de Carvalho – “Neuza-com-zê-guerreiro-de-carvalho. Gosto que escrevam completinho. Meu nome é minha identidade” – tem 80 anos e conta suas histórias ao Museu desde 1997. Ela começou por conta de um presente de família: um diário do avô de seu marido, datado de 1872, que fez surgir nela a vontade de escrever a história da família. “Fui escrevendo, escrevendo, mas nunca me preocupei com o que aquilo iria virar. Pra mim, era só um registro que queria deixar pros meus filhos”.

            De 97 pra cá, dona Neuza acumulou mais de 15 pastas – “dessas grossonas, sabe?”, ela faz questão de frisar – só sobre sua vida, sem contar as dos parentes todos, entre avós, irmãos, primos e agregados: registros de uma vida inteira passada a limpo. No Museu da Pessoa, ela tem dezenas de textos transcritos, fotos, documentos e um vídeo unitário sobre sua vida com duração de 4 horas. Além de banco de dados da família, esse material se tornou documento de pesquisa histórica: “Acabei de tornando um repositório de registros. Por eles, dá pra perceber o quanto evoluiu ou involuiu a sociedade”. Ela conta ainda, os olhos brilhando de satisfação, que os netos, quando arrumam namorada nova, vão fuçar nas pastas para impressionar a garota. “Sinto que eles têm orgulho”. O sentimento é perfeitamente justificável, afinal, quantas coisas durarão para além do nosso esquecimento?

            Dona Neuza diz que não é saudosista – “As pessoas dizem que antes era melhor. Era nada!” –, e quando questionada sobre o porquê de todo esse resgate, ela responde: “A identidade da gente fica reparada. É uma maneira de eu me sentir enraizada”. E quando sugiro que utilize as plataformas digitais pra armazenar suas histórias para livrar as tais 15 pastas do peso de uma vida inteira, ela é incisiva: “prefiro manusear”.

            Pode ser por necessidade, vontade, orgulho e – por que não? – um pouquinho de medo, que o homem criou diferentes maneiras de guardar suas lembranças. Não importa se representadas por tampinhas de garrafa amontoadas numa caixa de sapato ou por uma imensa indumentária de guerra preservada em um museu, o homem é feito de tudo aquilo que tem para lembrar.

            Seja como for, o desejo de reter partes significativas de um período histórico ou contexto social, ao menos entre as paredes do Museu da Pessoa, continuará resguardado nas histórias dos Josés, Marias e Raimundos de um Brasil que acontece todos os dias. Não é por acaso que Riobaldo Tartarana, personagem de Guimarães Rosa, atordoado com a urgência de possuir sua própria história, diz, em um trecho de Grande Sertão Veredas: “o que lembro, tenho”. Essa frase deixa escapar a ideia de que lembrança guardada é posse e, mais do que isso, não é a melancolia de um passado encerrado, mas uma memória que continua, uma vida que se recobra na lembrança e que por isso mesmo é viva. Cada história que compõe a História é um mundo que revela outros mundos. Este é o movimento que faz o mundo girar. Como diria dona Neuza, “a história é uma coisa progressiva; enquanto eu não morrer, ela vai continuar a ser escrita”.



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escrito por Renata Penzani - January 31, 2011

“Por que choram tanto as nuvens e cada vez são mais alegres?”


Linda, como sempre. A um só tempo inopinada e oportuna, chega sempre nos momentos em que estamos prestes a afundar em pensamentos. Que ironia, vejam só! Logo ela, impedindo afogamento. Percebemos sua fraqueza, seu vir-não-vir, sua singela forma de mostrar presença. Num minuto, é timidez, hesitação sem alarde. No outro, é extravagância, exagero estrambótico. Reconheço-a nas duas formas. Seu barulho chega antes da sua presença. Primeiro a escuto, depois a vejo – às vezes nem vejo, só ficando escutando, seus ruídos me bastam para saber que está lá. Se são intensos, percebo uma certa braveza, uma vontade de dizer alguma coisa que não diz nunca, mas que vivo tentando adivinhar. Comungo do seu alarde e logo se agitam uns pensamentos revoltos. Tempestade. Se são barulhos de sossego, aceito a melancolia e também me aquieto. Garoa fina. Mas algumas vezes, quebro o pacto mudo entre uma atitude e outra e vou expiá-la, a exibir o que lhe escorre. Pode ser prevista, intempestiva, mansa, fina, tórrida, ácida. De estrelas, areia, meteoros. De líquido, de pedra ou em forma de bolinho que acompanha café quente. Determina humores, atrasa os dias e alaga tudo quanto é rua e pensamento. Põe o agora pra depois – é mais penoso viver na chuva. Torna tudo chuvoso – até as pessoas. Resmunga e silencia na mesma proporção, e é como se reclamasse que já foi nuvem branca, calmaria, céu azul. A chuva é triste? Encharca todo mundo, mas nunca se enxuga. Incontáveis guarda-chuvas, e ela continua solta, a incitar as ventanias. Deixa-se diluir, mas sempre acaba num verso que redunda: a chuva chove. Chora, chora, e nunca desaprende a ser alegre. Chove, chove e nunca esvazia. A chuva é a gente mesmo, só que escorre.



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escrito por Renata Penzani - January 05, 2011

Brincar de palavra


            Há poucas relações tão intensas, necessárias e genuínas quanto a do ser humano com a palavra. Mal haviam nos colocado no mundo e lá estávamos nós, aprendendo uma porção de coisas para substituir a capacidade que ainda nos faltava. Aprendemos choros, grunhidos, gemidos e gritos retumbantes porque ainda não tínhamos o dom da fala - simples subterfúgios paliativos. E foi só adquirir para logo depois desaprender tudo de novo. “Não tenho palavras”, dizemos, sempre que temos muitas. Aí, passamos a aprender novas coisas para substituir as tais palavras em elipse. Aprendemos o olhar, o toque, o sorrisinho amarelo de canto de boca, o abraço. Só porque queríamos elas – as palavras, malandras, que nos fogem quase sempre. Que o digam os escritores, vítimas constantes de seus hiatos criativos. Mas que o diga também qualquer ser que é vivo e precisa se comunicar.

            A palavra é o meio pelo qual expressamos o que nos passa por dentro, e a via pela qual quase sempre escapa o que realmente queríamos ter dito. Mas é só olhar para o mundo para poder afirmar, sob a tônica de um vencido, um absurdo urgente: banalizaram as palavras!

            Diz-se qualquer coisa em qualquer contexto com qualquer palavra. Não pretendo, com isso, resvalar no superestimado “todos dizem eu te amo”, mas na constatação de que ninguém mais escolhe suas palavras, ninguém mais apalpa os seus significados ou explora suas milhares de conotações e denotações. Ninguém quer experimentar várias palavras para descobrir qual emociona mais – ou qual fere menos. Vivemos negligenciando seu poder de bala, sua irreversibilidade. Não queremos saber se redundam ou complementam, ofendem ou glorificam, se comunicam ou fazem ruído. Pobre palavrinha, deixou de ser o brinquedo da linguagem. “Não brinco de brinquedo, brinco de palavra”, já disse Manoel de Barros. E o lúdico se perdeu.

            Mas eis que um projeto muito simples me fez recuperar a fé na palavra e recobrar minha afeição pela etimologia.  Trata-se de um site, criado pelo Oxford English Dictionary, que funciona sob uma premissa muito simples e bonitinha: adote uma palavra e ela não morrerá. No melhor estilo naive a la Phoebe Buffay, o Save The Words exibe milhares de palavrinhas que saltitam em seu monitor, palavras carentes de alguma utilização, de alguma vida útil fora dos dicionários.

            Se colocada em prática, essa ideia colocaria fim em muitos incômodos da vida contemporânea: os discursos redundantes, os cacoetes que nos perseguem, os infindáveis sinônimos que padecem de nosso desprezo coletivo. Ok, exagero. Mas, descontada a dramatização, trata-se de algo perfeitamente possível a ideia de usarmos uma nova palavra a cada dia. Seria a tranqüilidade das palavras que já foram saturadas. Seria o último suspiro dos textos que resumem “as armações do barulho” de nossas sessões da tarde. O sossego derradeiro do preconceito à linguagem. Afinal, todos nós bem sabemos o quanto pode ser desestimulante ter sua palavra preferida inserida em algum contexto de potencial banalização.

            Os adjetivos são as maiores vítimas dessa verborragia desenfreada que se faz por aí. Em tempos como esse, não se pode tascar “divertido” em um texto ou conversa sem soar como uma vinheta de desenho animado. Ou ainda sair ileso de qualquer aplicação social que envolva mais de duas pessoas de palavras como “confusão”, “chocante”, “irado”. As pessoas simplesmente ignoram os significados literais em nome de uma espécie de bullying lingüístico. Isso para economizar as palavras que remontam a tempos áureos da etimologia, cujo maior representante ortográfico pode ser “supimpa”. È como ter suas roupas coloridas preferidas afanadas pelo estilo Restart – veja que até mesmo “preferidas” pode soar como algo advindo de uma enquete ginasiana. Você sempre usou, gostaria de continuar usando, mas opta por não fazê-lo porque o contexto te condena. 

O fato é que eu – assim como Eliane Brum segreda neste texto – também sempre quis que me perguntassem qual é a palavra de que gosto mais – nem que fosse para ficar com uma completa cara de tacho e perder o sono por noites afora em busca de uma resposta. Repare, por exemplo, que, aqui, a palavra “tacho” ganha a licença poética que lhe foi privada nesse tempo todo. Padecemos de uma repressão etimológica terrível, em que não podemos usar as palavras que queremos sem ganhar rótulo disso ou daquilo. Descanse em paz, preconceito vocabular.

            Daí a urgência do savethewords.org: é a redescoberta das palavras esquecidas em nome da democratização do vocabulário banalizado. A Língua Portuguesa clama por um projeto assim em terras tupiniquins – estou aqui à disposição, aliás. Adotemos uma palavra nova por dia e poderemos desfilar os nossos verbetes preferidos sem parecermos cafonas, saudosistas ou metidos a intelectuais. “Quem não vê bem uma palavra não pode ver uma alma” – a frase de Fernando Pessoa nos lembra do óbvio: somos feitos, proporcionalmente, de palavras e silêncios. Somente entupindo nosso vocabulário de palavras fresquinhas e novas é que vamos conseguir que continue tão poética a mal disfarçada expressão “estou sem palavras”. Que assim seja sempre que tivermos muitas.

* Foto da querida amiga-irmã Paula Machado



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escrito por Renata Penzani - January 02, 2011

Só a bailarina que não tem


O novo filme de Woody Allen, You Will Meet a Tall Dark Stranger (vitimado no Brasil pela tradução sofrível Você Vai Conhecer O Homem dos Seus Sonhos) é um enorme parêntese. Na filmografia de Woody. Em nossa semana. No próprio sentido da vida.

Quase podemos ver Woody, com um sorrisinho de canto de boca, por trás da frase que abre e fecha o filme. “A vida é cheia de som e fúria, mas, no fim, nada significa”, uma alusão a Shakespeare em Macbeth, é apenas ironia mal disfarçada de referência intelectual. Com ela, Woody Allen segreda em nossos ouvidos: “Olha, a história que vou contar agora, como a vida, faz pouco ou nenhum sentido e provavelmente não vai te levar a lugar nenhum, mas estou entediado e quero contá-la mesmo assim”. E aí os  98 minutos que seguem são espasmos de identificação respaldados por diálogos impagáveis e alguns dramas sinceros que não levam a nenhuma descoberta ou novidade.

You Will Meet a Tall Dark Stranger não muda nada nem ninguém – e nem nasce com essa pretensão. É só um dedo apontado para a nossa impotência frente à vida, que, no fim, resume-se à mesma óbvia constatação descrita por Graciliano Ramos em “Vidas Secas”: no fundo, todos somos Baleias e esperamos preás”.

O filme é uma mistura de histórias justapostas que juntas formam uma massa sólida, mas que, separadamente, são só cacos de pequenos fracassos. Alfie (o grande Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones) são um casal cujo relacionamento se enfraquece por um descompasso complexo: ela aceita a passagem do tempo e ele… bem, ele não. Sally (Naomi Watts), filha do casal, é casada com Roy (Josh Brolin), um escritor one hit maker, cujo sucesso do primeiro livro o enfiou num hiato criativo que o empurra de frustração em frustração.

O desenrolar dessas vidas todas é quase um poema drummoniano. Alfie compra a ilusão da juventude se casando com uma garota de programa, Charmaine (Lucy Punch, em atuação impecável e divertidíssima – descontados os exageros, é a única personagem honestamente coerente do filme), com quem constrói a falsa ideia de felicidade. Helena desaba num poço de ilusões sem fim e se entrega às previsões da vidente (atenção para o nome) Crystal (Pauline Collins). O escritor-de-sucesso-em-potencial Roy passa a flertar com a vizinha do prédio ao lado para ignorar o fato de que nunca será bom o suficiente para sua mulher, Sally – que, aliás, merece destaque. A personagem interpretada com graça por Naomi Watts funciona como uma espécie de aparador de angústias. Ela é o ponto de convergência de todas as personagens, uma espécie de ancoradouro de fracassos. Das loucuras do pai, dos absurdos da mãe, das fraquezas do marido, da insegurança da amiga e dos conflitos do chefe. E dela mesma, que nunca conseguiu ter sua própria galeria e fantasia uma história de amor com o chefe, Greg, vivido por Antonio Banderas.

É no meio desse emaranhado de histórias que Sally personifica a mensagem que o sempre sarcástico Woody Allen quer passar – se é que há mesmo essa vontade por trás daqueles óculos. Todos temos conflitos, defeitos, aspirações. É nosso eterno denominador comum, que nos agremia e nivela todos os dias, não importando credo ou posição social. No melhor estilo “só a bailarina que não tem”, da música do Chico Buarque, é também por termos nossas próprias questões e defeitos que nos identificamos com as personagens do filme, e que continuamos assistindo mesmo quando advertidos de sua total falta de sentido.

Somos todos um pouco Baleia, a cachorrinha de Vidas Secas, que passa a vida sonhando com um farto banquete de preás e morre com a mesma fome que lhe assaltou por toda a vida. A ambição não diminuiu sua fome, nossa incompreensão perante a vida não nos livra da urgência de experenciá-la com a máxima paixão, e o filme de Woody não nos ensina nada de novo, mas, como Baleia, somos movidos também pelo sonho: senão um campo de preás gordos e muitos, pelo menos uma vida um pouquinho menos medíocre.



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escrito por Renata Penzani - December 17, 2010

A arte do espanto - entrevista com Eliane Brum


  

Eliane Brum é pequena, reservada, serena. A voz, ritimada pelo forte sotaque gaúcho, só pode ser ouvida quando se faz silêncio, de tão diminuta. Tudo isso seria absolutamente coerente se não fosse Eliane a jornalista tão abruptamente feroz que é. Quem a vê assim, tão doce, não adivinha que ela já enfrentou as mais agudas realidades em busca de uma reportagem que as traduzam com honestidade. Foi esse deslumbramento que Eliane causou em quantos a encontraram em Vitória, na etapa regional do Intercom de 2010.  Isso porque Eliane é personificação do que dizia Fernando Pessoa: “eu sou tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura”.

Expoente do chamado “Jornalismo Literário” (alcunha que não a agrada muito), Eliane alimenta, por meio do seu trabalho, o ofício maior de ser jornalista e de ser gente: o espanto. Seu maior trunfo na profissão não aprendeu na faculdade e nem nos mais de 10 anos de redação, já nasceu com ele: um par de olhos arregalados e atentos.

O Olho da Rua (Editora Globo, 2008) é o seu livro que mais a denuncia. E a denúncia exibe a Eliane que viaja, vivencia, experimenta. Eliane já ficou 10 dias embrenhada no mato para investigar os benefícios de um retiro vipássana (espécie de ramificação do budismo), cuja premissa maior era o silêncio absoluto; internou-se por um mês em um asilo de São Paulo para entender como funciona a vida quando o mundo se esquece de você; em 2007, mudou-se para um quartinho numa esquina da Brasilândia, bairro da periferia de São Paulo, para buscar alguma delicadeza no meio da violência das ruas; mergulhou nos confins da Amazônia para escrever sobre as parteiras da floresta e, nos anos 90, refez todo o caminho da marcha de Luiz Carlos Prestes (25 mil quilômetros) para reescrever uma História que já estava documentada e imortalizada – a investida rendeu o livro Coluna Prestes, o avesso da lenda (Editora Artes e Ofícios, 1994).

Eliane é gaúcha de Ijuí, Rio Grande do Sul. Formada em Jornalismo pela PUC do Rio Grande do Sul, Eliane nunca quis ser jornalista. Cursava duas faculdades ao mesmo tempo – História na UFRGS e Jornalismo na PUC –, e só da primeira tinha alguma certeza. Tudo mudou quando um professor de Jornalismo, Marques Leonam, apresentou a ela uma face da profissão que ela não conhecia: o lado gente. Convencida até os ossos da idéia de que “nenhuma matéria é mais importante que uma pessoa”, Eliane entrou na profissão num misto de receio e descrença. Para uma inquieta invicta, parecia a profissão perfeita.

Dona de mais de 40 prêmios jornalísticos – dentre eles Jabuti, Esso, Vladimir Herzog e Sociedade Interamericana de Imprensa – Eliane trabalhou mais de 10 anos na histeria de uma redação, no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e tem hoje uma vida aparentemente mais contida – aparentemente: mantém uma coluna semanal na revista Época e escreve todas as terças-feiras no site de crônicas Vida Breve, onde também trabalham nomes como Rogério Pereira, Luiz Pellanda e Fabrício Carpinejar. Mas Eliane não fica parada, acha que todos nós somos respostas inacabadas. É também documentarista, incipiente escritora de ficção e mãe – em todas essas investidas, não sabe se vai ter sucesso, mas não tem medo das interrogações.

Nesta entrevista, Eliane emprestou um pouco de suas angústias e inquietações sobre o que, segundo ela, só pode ser a “melhor profissão do mundo”.

 

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Renata: Durante a faculdade de Jornalismo, tinha certeza de que não se tornaria jornalista. Quem te apresentou o Jornalismo da maneira que você o conhece foi um professor que teve na faculdade, Marques Leonam. O que ele te disse que transformou o seu olhar sobre a profissão?

 

Eliane Brum: Eu não me via como jornalista, me achava muito tímida, e também não gostava muito de jornal, achava muito chato. Sempre gostei de Literatura. E eu fazia História e Jornalismo – História na Federal e Jornalismo na PUC – e aí eu conheci esse professor, que era maravilhoso. Ele era aquele professor que abria todos os caminhos do mundo, tu podia fazer qualquer coisa, e de várias maneiras – tinha só que descobrir qual era a sua maneira e buscá-la. Ele me fez ver o fascinante da profissão. Para ele, ser repórter era a melhor coisa do mundo, e ele falava aquilo com tanta paixão que eu comecei a enxergar pelos olhos dele. Eu tive uma faculdade muito ruim, então era a primeira vez que eu vi o mundo inteiro se abrindo. Quando eu fiz a minha matéria sobre as filas que a gente enfrenta, desde que nasce até morrer, ele não achou uma idéia estapafúrdia; ele achou bacana e queria ver como eu ia me virar pra fazer isso. E aí eu fiz essa reportagem, uma amiga minha inscreveu num concurso universitário e me chamaram pra comentar a matéria com uma comissão de jurados. A comissão tinha jornalistas e tinha publicitários; os jornalistas disseram que o que eu fazia não era jornalismo, e os publicitários disseram que era, mas como tinha mais publicitários que jornalistas, eu ganhei. Nesse momento, começou algo que eu fui absorvendo muito na minha vida, a idéia de que o que eu fazia não era jornalismo. Diziam que era Literatura, outra coisa, porque eu não usava a pirâmide invertida, que era tudo o que valia naquela época. Se eu tivesse acreditado, eu estava ferrada, porque o jeito que eu escolhi pra fazer as coisas me trouxe pra trabalhar aqui em São Paulo e foi por ele que eu consegui fazer tudo o que eu fiz. É difícil acreditar na gente quando ninguém mais acredita. Tu tem que encontrar pessoas que te amparem nisso. Quando eu entrei no Zero Hora (o prêmio do concurso era um estágio no jornal), me agarrei num repórter chamado Carlos Wagner, que fazia muita reportagem, e se posicionava. E eu o aluguei. Tu vai se encontrando dentro das redações.

 

 

 

Na sua palestra durante o Expocom, em Vitória, você falou muito sobre um Jornalismo que deve escutar e sentir as histórias. O que você acha do Jornalismo que está sendo feito hoje? O que te incomodava na faculdade ainda existe no Jornalismo de hoje?

 

Eu acho que hoje se escuta muito pouco. Não sei se é uma coisa de hoje, isso eu não sei dizer. As pessoas falam com muita nostalgia do Jornalismo de 10 anos atrás, mas acho que as pessoas reclamam muito. Tem maus jornalistas e bons jornalistas em todas as épocas, e eu não sou uma nostálgica. Quando eu comecei, há 21, 22 anos atrás, tinha vários problemas! Mas o que eu posso dizer é que hoje se escuta menos porque se usa mal a tecnologia, que é uma coisa maravilhosa. As pessoas acabam preferindo fazer as coisas por telefone ou por e-mail. Mas a escuta em Jornalismo vai muito além da fala das pessoas, a gente diz coisas por várias maneiras. Diz pela maneira que a gente fala, diz pelo nosso olhar, nossos gestos, nossos silêncios, ou mesmo se a gente gagueja em alguns momentos. Enfim, são vários sinais! A cena que envolve uma entrevista vai muito além das palavras pronunciadas – você não sabe como eu estou agora, por exemplo, dando entrevista de pijamas. É claro que se a entrevista fosse com um chinês, seria difícil tu ir pra China, mas o que acontece é que as pessoas fazem as coisas muito por comodidade, pra não sair da redação. Eu nunca vi tanto jornalista que não gosta de sair da redação como eu vejo hoje – tem uns que não saem nunca. Eu, por exemplo, gasto horas no trânsito de São Paulo pra fazer uma entrevista – fico muito mais tempo no trânsito do que fazendo a entrevista. Muitos jornalistas se deixaram reduzir a aplicadores de aspas em série, e isso não conta nada da realidade, ou conta muito pouco. E mesmo quando as pessoas vão até onde as coisas estão acontecendo, a gente vive num mundo com muito barulho. As pessoas tem uma necessidade incrível de falar o tempo todo e uma dificuldade enorme de escutar, e no Jornalismo eu vejo muito isso: o cara que vai entrevistar alguém e nem o escuta. Ou não escuta porque sai com uma tese pronta da redação, e aí ele precisa que aquela pessoa confirme essa tese (e isso não é Jornalismo); ou então, fica interrompendo a pessoa porque acha que ela está demorando muito pra dizer o que ele acha que ela tem que dizer. Isso não é escutar, é preciso escutar de verdade o que as pessoas contam, como elas contam o que contam, que palavras elas usam pra contar a história delas, senão não é possível fazer reportagem.

 

 

Você acha que é viável esse tipo de reportagem hoje em dia?

 

Não tenho dúvida de que é viável. Acho que é possível fazer reportagem hoje como sempre foi possível. Quando tu vai pra dentro de uma redação, tem que saber que vai ter dificuldade, vai ter problemas, e que vai ter que brigar em alguns momentos. Brigar que eu falo é discutir, buscar o chão, botar os limites e ir conseguindo um espaço. Nenhum editor é louco de tu chegar com uma ótima pauta e ele falar que não. O que eu vejo muito, Renata, é preguiça. As pessoas reclamam muito que tem pouco tempo, que o editor não deixa, mas é muito fácil jogar pro outro. A gente tem uma responsabilidade quando se propõe a contar uma história, e tem muita gente que tem preguiça mesmo, que fica no MSN conversando com os amigos e enquanto isso faz uma entrevista. Isso eu vejo o tempo todo – agora não mais porque eu não estou na redação – então tem de tudo. Na Época, eu já vi ótimos repórteres, começando agora, que vão fazer coisas maravilhosas, e que se condicionam, que são conscientes da sua responsabilidade, e também vi gente que não estava afim mesmo, que tem medo da rua, medo das pessoas.

 

Atualmente, a notícia factual, bruta, está muito fácil. É possível encontrá-la nos portais da internet, no Twitter. O Jornalismo impresso ainda tenta competir com esse aspecto factual da internet. E essa é uma competição burra, porque já que ele não consegue competir, deveria fazer diferente, e o seria fazer isso que você está dizendo – escutar, ir para a rua, contas as histórias das pessoas – mas você vê isso acontecendo?

 

Acho que as pessoas têm medo de mudança, mas elas estão se dando conta disso. Acho que a internet é outra coisa, ela é de outra ordem. O Jornalismo vai precisar cada vez mais da reportagem. Antes, o jornal te dava a notícia, tu ficava sabendo das coisas com o jornal na tua porta de manhã, e agora não. Por mais desligado que tu seja do mundo, vai ficar sabendo de várias maneiras. Então o que vale é o diferencial, e eu acho que a reportagem agora é mais importante do que nunca, eu sou otimista.

 

 

Você trabalhou muito tempo em redação diária e hoje mantém uma coluna na revista Época e no site Vida Breve, que demandam produções semanais. Além do tempo para criação, quais são as principais diferenças de escrever nesses veículos?

 

Eu fiquei 11 anos no Zero Hora. Eu fazia jornalismo diário, eu fazia matéria especial (voltar nessa parte pra entender melhor). Eu não tive nenhuma mudança quando fui trabalhar na revista, até porque na revista não é reportagem, é coluna, é outra coisa (aí tem outras implicações, ainda é uma coisa que eu estou experimentando), mas quando eu estava no jornal, eu sempre fiz do mesmo jeito. Acho que não importa o meio que tu está, mas a forma que tu olha. Assim como, por exemplo, se tu tiver um mês pra fazer uma matéria e tiver aquele olhar que vai repetir porque é mais fácil, não adianta ter um mês. O que importa é a forma como tu olha para a reportagem, como tu vai pra rua e olha para as coisas, tentando enxergar um pouco além do óbvio, tentando ver as coisas de vários ângulos, sem medo de percorrer essa zona cinzenta cheia de nuances que é a realidade.

 

 

Na mesa do Expocom, você falou sobre a dificuldade de escrever diferente do que escreveu a vida toda. Assim como o Luis Rufatto, que recorre ao dicionário, você tem algum artifício a que recorre para driblar a redundância de si mesma? Como você faz pra escrever diferente do que sempre escreveu?

 

Acho que não é uma questão de palavra diferente. É um policiamento que tu tem que fazer contigo mesmo. Eu sou uma crise ambulante, estou sempre me questionando. É um policiamento constante, para não se acomodar, e isso vale pra vida. Eu tento perceber se eu não estou me repetindo, porque quando você vai ficando mais velho, já tem o seu próprio manual, que você sabe que funciona, e aí a reportagem (ou o que for) sai fácil. Eu sempre tento fazer o exercício de – primeiro, lembrar disso – complicar as coisas. Eu tenho uma pauta, e tento complicar essa pauta, porque se ela veio assim é porque é o mais óbvio, é o jeito mais fácil de fazer, seja por outros ou seja por mim, e escrever é a mesma coisa. Então, eu estou escrevendo de um jeito, mas será que esse é o melhor jeito de contar? Não tem um outro jeito que vai me exigir mais tempo e vai ser um jeito em que eu me reinvente? A gente está o tempo todo se reinventando na vida, não tem nada pronto, a gente não é algo acabado, estamos sempre com essa possibilidade de ser diferente. E no jornalismo é isso, na reportagem também: tu tem que estar sempre se reinventando. É claro que tem um estilo que é teu, um jeito de contar que é teu, mas dentro desse jeito de contar, tu precisa se reinventar o tempo todo. Pra mim, a coluna também é isso, primeiro pela coisa de trabalhar na internet, porque eu acho a internet maravilhosa – não pra fazer entrevista e outras coisas, mas acho que a internet mudou muita coisa pra nós jornalistas. Antes da internet, eu fazia o meu trabalho para dar voz àqueles que não tinham voz, mas hoje eu já não posso dizer isso, porque ela deu voz a muita gente; é um instrumento das periferias, não só as das grandes cidades, mas as do Brasil todo até a Amazônia; as pessoas todas têm blog e isso democratizou muita informação, porque as próprias pessoas contam suas histórias de várias maneiras. Se a imprensa tradicional não cobre, elas mesmas cobrem aquilo que fazem. Isso mudou muito a reação de forças e ampliou muitas vozes. Hoje, tem muito mais gente falando, é muito mais plural. Acho isso fascinante, e queria fazer alguma coisa na internet. Daí esse exercício de fazer coluna, que é diferente da reportagem. A internet é um exercício constante de humildade, de tolerância, porque as pessoas te respondem na hora, comentam, te xingam; tu tem esse retorno imediato e isso serve para várias coisas, principalmente pra compreender um pouco mais as pessoas. Uma coisa que me interessa muito é o que as pessoas falam, como elas se manifestam quando elas podem dizer qualquer coisa. É uma coisa chocante. Outra coisa que eu acho muito bacana na internet é que as pessoas continuam escrevendo o seu texto. Quando as pessoas estão realmente pensando juntas, às vezes elas escrevem coisas que o meu texto não abarcou, e que é uma continuação do texto, com outras possibilidades, e isso é muito legal. São comentários autoexplicativos, tu conhece as pessoas e como elas se comportam por aí.

 

 

Você diz que sofria muito com os cortes dos editores nos seus textos. Na sua coluna na Época isso ainda acontece?

 

Não, porque a minha coluna não passa por ninguém. Eu sofria muito com os cortes de matéria, brigava muito por isso quando eu comecei, nos primeiros anos de reportagem. Depois, aos poucos, eu fui conquistando o meu espaço e quando eu saí do Zero Hora, já não tinha esse problema. Mas na Época, na maior parte do tempo, eu respondi direto pro diretor de redação, não tinha editor entre mim e o diretor de redação. Então, se tivesse que discutir alguma coisa, discutia com ele; isso elimina muito passos. E eu já vim para São Paulo por conta do trabalho que eu fazia, e da forma como eu fazia. Então, não fazia muito sentido alterar o que eu fazia se estavam me contratando exatamente por aquilo, embora eu tenha tido alguns embates, claro, sempre tem. Claro que houve discussões, mas agora é muito menor a interferência, eu posso ser mais autoral. E isso é uma coisa que tu vem conquistando com o tempo, pelo trabalho que tu faz, tu te mostra, entrega aquilo que promete – as coisas boas da rua –, e faz o seu espaço. É uma construção.

 

 

Principalmente em estudantes que estão começando na profissão, bate uma certa sensação de eco, porque quando se tenta fazer algo diferente, o que não falta é gente pra te dizer que aquilo é errado. Hoje em dia, você acha que está mais fácil ou mais difícil construir essa voz própria?

 

Acho que nem mais fácil e nem mais difícil. Sempre foi difícil. Porque se tu começa esse problema na faculdade, é na faculdade que tu tem que começar a brigar. Para um editor medíocre, é mais fácil que o cara faça o que ele mandou, que faça aquele feijão com arroz que resolva o problema dele. Isso só para editores medíocres. Se tu te abate com isso, vai fazer isso a vida toda, e vai ser facilmente descartado, porque pra fazer do mesmo jeito que todo mundo faz, todo mundo faz. Quem toma esse caminho são pessoas que, por uma série de razões, não querem ter voz própria. Ter voz própria exige que tu tenha uma grande disposição, tudo fica mais difícil, mas os caminhos mais difíceis são os melhores. Então, depende muito de quem é que tu quer ser. Eu vejo isso claramente nas pessoas que entram na Época. Dá pra ver direitinho quem é que vai fazer coisas legais e quem não. Se tu abaixar a cabeça e só fazer o que te mandam, mesmo achando que está errado, está ferrado – e vai ser demitido porque vão contratar um mais barato que tu, que faz a mesma coisa. A grande coisa da vida é a gente buscar nossa própria voz, e essa é uma busca que não acaba, é a busca de todo mundo. Assim como a vida não é fácil, não é fácil numa redação. Nenhum editor vai te botar no colo e perguntar quanto espaço tu precisa. Eu sofri muito, tive vários embates sérios, fiquei sem dormir muitas vezes e já pensei em largar tudo, mas não largo. Não largo porque tu tem que ter dentro de ti uma coisa que é o teu projeto de vida; manter dentro de ti um horizonte que é teu e esse horizonte ninguém te tira. É pra ele que tu olha e não te deixa abater pelas pequenezas ao redor de ti, para se concentrar naquilo que vale a pena, naquilo que é grande. Isso acontece quando tu tem um ideal e sabe porque está fazendo Jornalismo – não uma resposta pronta porque essa resposta também está sempre em construção, mas um começo. Saber que o Jornalismo não é ganhar um bom salário e ser famoso, é algo muito maior que isso. É a sua inscrição no mundo! O nosso trabalho é a maneira com que a gente se coloca no mundo e muda o mundo. Não acho que seja um mau momento para ser repórter. É um bom momento. Os jornais estão buscando pessoas que tenham singularidade, voz própria. E com a internet, há muitas possibilidades de contar a sua história, muitas que, inclusive, nem passam pela imprensa tradicional.

 

 

Além da coluna da Época e das crônicas no Vida Breve, o que está fazendo atualmente?

 

Estou terminando um documentário. Acabei de escrever um pequeno livro, que tem a ver com reportagem, mas é mais autobiográfico, e além disso vou escrever um livro de ficção, que é uma coisa que eu nunca fiz. A gente tem que estar sempre se reinventando, então eu vivo com frio na barriga por sempre tentar fazer alguma coisa que eu ainda não fiz, tentando contar histórias de outras maneiras. Mas a reportagem é essencial: eu sou repórter.

 

Não sei muito sobre mim mesma. Quando acho que sei um pouco, eu mesma me desmascaro e escapo de mim. Mas se tenho alguma certeza é a de que sou repórter. Ser repórter é algo profundo, definitivo do que sou. Todo o meu olhar sobre o mundo é mediado por um amor desmedido pelo infinito absurdo da realidade. E pela capacidade de cada pessoa reinventar a si mesma, dar sentido ao que não tem nenhum. São esses os únicos milagres em que acredito, os de gente.”

 

Trecho do livro A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial)

 

 

 

 

Esta entrevista foi feita em junho, aqui vão as atualizações necessárias:

 

# Eliane Brum deixou a redação da revista Época e passou a escrever somente na revista online, onde sua coluna é publicada todas as segundas-feiras.

 

#O documentário que ela cita no final da entrevista, Gretchen Filme Estrada, com direção de Samora Paschoal, vai ser lançado dia 21, próxima terça-feira, no Itaú Cultural, em São Paulo.

 

Confira aqui o trailer não-oficial: “Gretchen Filme Estrada”



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escrito por Renata Penzani - September 17, 2010

Tudo o que arde


            Há tempos que vem andando cabisbaixo, desaforado, num desamparo de causar dó. O fato é que a repressão chegou a níveis insustentáveis, e nem o mais seguro dos compostos químicos resistiria a tamanha rejeição.

            Nos cadernos de saúde pululam alertas quase diários a favor de sua extinção. “Como viver melhor sem ele”, “Saiba o que ele pode te causar”. Profecias de um fim de mundo pararelo ao de Nostradamus, antevisões de uma tragédia anunciada. Balela. O sal, desgostoso da vida, vai empalidecendo de tristeza.

            É difícil saber a origem do desprezo do Homo Sapiens pelo famigerado pozinho. Diagnosticar tamanho egoísmo é difícil principalmente porque o pobre sal quase não tem maus antecedentes. Salvo algumas obstruções arteriais e poucas frustrações em logística de circulação, seu currículo é o retrato do sucesso: metabolismos garantidos, osmoses bem-sucedidas, potes de amendoim japonês e bolinhos de bacalhau.

            Mas nem sempre foi só desgraça, e o pozinho já viveu dias mais felizes. Houve um tempo em que sal era artigo de luxo, um tempo em que nossos ancestrais tinham de se descabelar contra a escassez deste sagrado composto branco. Não havia sal para conservar a comida, e havia muita comida, e havia fome. Foi aí que a evolução das espécies arregaçou suas manguinhas para resolver a escassez do sal no meio ambiente. Erguido apenas pelas lembranças desses tempos de alegria, o sal relembra com carinho seu passado de glória. O sal era pouco, e era preciso muito para que as células continuassem ativas, por isso o corpo, inclinado ao desespero, criou mecanismos de defesa para que o pouco sal que chegasse fosse retido. E quem pode julgá-lo? A afeição é totalmente compreensível. O sal é o sabor da vida, esperança de algum gosto para os que não têm nenhum. O sal é uma vítima do paladar.

            Foi esse apego ancestral que fez surgir o que, para os médicos e nutricionistas, é o apocalipse em forma de oração subordinada: a retenção de líquidos. O que vem depois é uma sequência de silogismos que apavora o pobre sal. A retenção aumenta o volume de líquidos que circulam dentro da gente, o que aumenta a pressão, o que prejudica a flexibilidade das pobres artérias, o que sobrecarrega o coração e os rins. Logo, o sal é o novo tabaco. O novo vírus Ebola. Um outro nome para o fim do mundo. Na vida do azarado sal, tudo acontece. Foi criada até mesmo uma lei para frear seus perigos, a lei antissodio, devidamente adequada à nova ortografia. Numa malograda inversão da humanidade, o sal passou de da escassez extrema a abundâncias abismais, e, neste século XXI, ele é como capim ou uma música do Justin Bieber – e não é preciso dizer mais nada. O mundo se estica e expande e quem sofre as repressões é o sal.

            E a violência não está só aí. São as pequenas ações cotidianas que maltratam os seus sentimentos. Vitimado pelo açúcar, esse placebo das dores humanas, o sal é relegado ao esquecimento. No dia dos namorados, só se ganha bombons e outras bobagens revestidas de glicose. Na Páscoa, os ovos passam a ser de chocolate. Nos aniversários, todos se acomodam ao redor de uma grande mesa para louvar pequenos e grandes e muitos pedaços de açúcar. Quando alguém é gentil, é doce. É num copo de água com açúcar que as pessoas vão aliviar suas angústias. Para o sal, nada. Até mesmo do bacalhau, reduto de sua abundância e liberdade, tentam tirá-lo com induções de osmose biologicamente infalíveis. Dos confeitos que ornamentam as árvores de Natal às melosas adjetivações dos casais apaixonados, nada é salgado. O fato é que o sal parece ter sido reservado a todos os sofrimentos. O mundo é feito de açúcar. dor

            Vale destacar algumas tentativas de dar vazão às suas qualidades. O amendoim é um bom exemplo disso – ninguém toma cerveja comendo brigadeiro. Não é em calda de pêssego, ganache ou suspiro de baunilha que alguém pensa quando vem em mente um happy hour com os amigos. Mas nada disso chega aos pés da humilhação sofrida pelo sal nos assuntos do coração, afinal, só açúcar é sinônimo de amor. Chegaram até a tentar desconstruir o estereótipo arriscando um popularismo fracassado: quem não conhece a história de que muito sal na comida é sinônimo de gente apaixonada? Em vão. A anedota virou logo sinônimo de piada ruim proferida por alguém com mais de 75 anos e pouquíssimo senso de humor, equivalente ao tradicional “é pa vê ou pa comê”, do lado do adversário. Há também o bicarbonato de sódio, o soro caseiro, os sais de banho. Há a bolacha de água e sal, esse fragmento totipotente das possibilidades gastronômicas. O sal grosso. O limão e a tequila. O Sazon. Todos remadores contra uma mesma maré de rejeição.

            Quando tudo está bem e os sorrisos reinam, dizem que a vida é doce, que os problemas são simples e domáveis mamões com açúcar e que é “de choc choc choc chocolate que o amor é feito”, para citar um ícone da cultura pop. Mas se o doce é alegria, o salgado é honestidade. O açúcar é ferramenta de maquiar dores, curar carências, enganar ciclos hormonais, conquistar paladares. “Com açúcar, com afeto, fiz seu doce preferido”, cantarola Chico Buarque. Mas a verdade é feita de sal. Que o digam nossos joelhos, tão maltratados pelo spray de Merthiolate disparado bem no meio da nossa dor. É em sal que ardem nossos pequenos sofrimentos. É em bicarbonato de sódio que borbulham as lembranças do dia anterior. O sal forma caráter. É de sal o suor das horas de trabalho, dos exercícios que provocam tantas descargas de serotonina, da lágrima que nos escapa num súbito de melancolia ou felicidade, das conquistas, das vitórias. Só o sal é humano. E nós, embevecidos por uma onda doce de segurança forjada, continuamos achando que somos feitos só de açúcar. Nesse sopro confortável com que o açúcar nos hipnotiza, continua sem resposta a pergunta de Pablo Neruda: “se todos os rios são doces, de onde o mar tira o sal?¹”.

 

 

¹ : Pablo Neruda, em O Livro das Perguntas


* Ler também:

O sal, de Luciana Elaiuly

Saiu para comprar sal. Nem sempre a doce vida é a melhor vida. Doce enjoa. O Sal dá sede. Sal deixa a gente vivo. Ele saiu para comprar sal. Deixou a casa acesa. A luz em cima da mesa. A busca é sempre a mesma: levar o sal pra casa, tempero de uma risada, graça até pro copo d´água, mas a sede é sempre vesga.
Ele cruzou esquinas, cruzou os dedos, mal sabia. O sal era a ausência que ele deixava quando saía, era o frio de estar sozinho, o sal era só até a esquina, era ela sentir a falta um pouquinho. E ela sentiu. Por isso temperou os planos pro futuro com têmporas tensas e empolgadas. Visões um tanto salgadas, mão molhada, ela sob a luz daquela mesa. Esfomeada. Esperou. Mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, mais um tanto de espera: ele não voltou. Pesou demais a mão no tempo e o tempero dessalgou. Ela escreveu na geladeira “o sal acabou”. E saiu pra comprar um doce, mas a busca é sempre por amor.



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escrito por Renata Penzani - September 09, 2010

Grandes questões gastronômico-existenciais


Sempre achou estranho ouvir a mãe dizer “sardinha”, “batatinha” e “pimentão”. Na escola, conheceu o aumentativo e o diminutivo. Sabia também o que acontecia quando uma palavra não sofria nem uma coisa nem outra: eram os três degraus que a palavra podia subir. Mas, muito estranhamente, “pimentão” era o degrau do meio, não diminuía nem aumentava coisa alguma, afinal, pimentas grandes eram chamadas de pimentas grandes, e não de “pimentão”. “Sardinha” também não significava o que sugeria sua lógica infantil, mas essa era mais fácil de adivinhar. “Sardinha”, retirada a terminação, se transformava em “sarda”, e ela sabia bem que sarda nada tinha a ver com comida, ao contrário de pimenta. “Sarda” confundia com “sarna”, e nenhuma das duas coisas a mãe guardava na cozinha. Ia nesses pensamentos confusos até sentir as idéias embaralharem. Mais tarde, já adulta, não se preocupou mais com esses pequenos mistérios da existência. Passou a comer sardinhas e pimentões sem grandes angústias. Consentiu que refletir sobre as coisas não muda o seu gosto: foi uma sucessão de alívios. Mas os adultos vivem num tempo diferente dos pequenos, um tempo em que as pessoas não sentem o gosto da sopa, mas sempre reparam que o prato está quebrado. Felizmente, em alguma cozinha, alguma mãe é chateada por uma sucessão de porquês.



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escrito por Renata Penzani - August 20, 2010

O Eco


Tudo o que pensava de mais terrível, só ele escutava. Complacente, repetia as últimas sílabas, cabeça abanando em sinal de consentimento. Ela queria gritar, ferir e matar, e ele a acalmava, embalando as suas palavras de fúria no mais plácido dos colos. O ritmo de sua calma era antídoto para os piores sentimentos.

As palavras dela saindo da boca como balas enfurecidas em busca do primeiro alvo, e ele só sabia ser ternura, o tom de voz sutil, diminuto, decrescente. Dizem que o que somos de pior é o que, de verdade, nos define, e o que somos de melhor é a somente a consequência desse outro lado, que se sabe falho, reticente e absurdo. Ela sabia disso. Ele também. Quem só conta as virtudes esperando glorificação está aniquilando qualquer chance de honestidade: é deixar os nossos defeitos no quintal de nós mesmos.

            Um dia, ela entrou em casa, a cabeça atulhada dos pensamentos mais nebulosos. Queria ir embora, desligar-se de tudo. Mas, naquele dia, ela não esbravejou, não espalhou pelo vento as costumeiras palavras amargas dos dias ruins. Sua dor estava cansada, e preferiu silenciar. E naquele dia, ele não a amparou, não consolou sua amargura. Ela ficou sofrendo quieta, sem entender muita coisa. Vai ver que é porque o Eco é um pouco surdo. Ou a angústia muito silenciosa



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escrito por Renata Penzani - July 15, 2010

Eyjafjalla, um vulcão injuriado


Eu sei que sou bem grandinho e poderia me virar sozinho, mas achei que não fazia mal escancarar as minhas angústias. Sei o que andam falando de mim, e que o mundo imerso submergiu em caos depois que resolvi me manifestar, mas venho por meio desta exprimir o meu assombro. Meu nome é Eyjafjallajokull e sou inocente.

Desde que acordei, naquele incipiente e ensolarado abril, os mais discrepantes eventos mundiais têm sido associados a mim. Sei que as cinzas originadas de minha lava atingiram a zona de controle do tráfego aéreo, e que por conta disto o caos, que não economiza esforços para descompassar o plano terreno, atingiu também o plano aéreo. Imediatamente, os vôos de quase toda a Europa foram cancelados, e mais de 70% dos aeroportos ficaram parecendo estufas de massas humanas abarrotadas, num misto de fila de INSS, acampamento de MST e portaria de Maracanã em dia de jogo – para ficar só nos exemplos brasileiros, povo com o qual simpatizo muito, por não ter ainda se manifestado contra mim.

Sei também que as grandes entidades internacionais andaram perdendo o sono pensando em como contornar o prejuízo das companhias aéreas, estimado em absurdos 200 milhões de dólares por dia de paralisação (!). 

Mas o que todos esquecem quando maldizem o meu nome e a erupção causada por anos e anos de dióxido de enxofre reprimido, é o óbvio ululante: eu sou inocente. Quando nasci, há milhões de anos atrás, nos hot-spot de potencial destrutivo, eles não estavam lá: políticos, aeroportos, turismo europeu, caos urbano. Quando eu acordei, lá estavam eles: políticos, aeroportos, turismo europeu, caos urbano e dedos em riste apontados em minha direção.

A erupção do meu conterrâneo Laki, em 1783, lançou mais de 120 milhões de toneladas de gases na atmosfera e não me lembro de ele ter sofrido o que sofro agora – o que é, sejamos francos, uma sucessão de disparates. Afinal, até mesmo a minha composição ortográfica parece incomodar as autoridades e jornalistas, que, sob motim infundado e descompromissado com a ética, começaram uma campanha de exportação de vogais para a Islândia, visto a grande dificuldade de pronúncia do meu nome. Se não acreditam, vejam vocês mesmos.

Pensem em minha indignação neste momento, ao ter de engolir todos esses impropérios após 200 anos da mais serena calmaria. Ouvi até alguns apocalípticos chamando de “fúria da natureza” o meu ressurgimento, ou rotulando o acontecimento de “vingança”. Posso ser feito de magma, gases e partículas quentes, mas tenho sentimentos.

 

Preconceitos a parte, basta fazer uma busca pelo meu nome no Google para perceber que nem só de opiniões fervorosamente reacionárias é feito o mundo. Teve até o caso de um piloto do GP da Espanha que deu pulos de alegria ao saber que acordei e indiretamente adiei a ida de sua equipe para o Japão, fato que lhe rendeu mais tempo de recuperação e treinamento. Teve até quem – no melhor estilo “se a vida te dá limões” – aproveitou a oportunidade para criar a mais nova bizarrice do didatismo: workshop de vulcanologia avançada, cuja primeira lição é “Agora que já sei que o vulcão dos Açores se chama Capelinhos vou memorizar o da Islândia”.

Houve também ambientalista que abriu sorriso de orelha a orelha quando acordei. A liberação das minhas poeiras e aerossóis na atmosfera, tão massacrados pela grande mídia, converteu-se em esperança para o aquecimento global. Isso acontece porque os meus gases chegam até a estratosfera e provocam fenômenos físico-químicos que criam uma camada protetora de partículas esbranquiçadas que protegem parcialmente a Terra da radiação solar. Mas era só eu ficar feliz pelo reconhecimento tardio de minhas qualidades, que algum cientista vinha irromper em minha alegria, dizendo que minha erupção não foi suficiente para resfriar o clima – o que é, claro, uma grande injustiça. O que aconteceu nas Filipinas em 1991 – aquele puxa-saquismo pra cima do Monte Pinatubo (lembram-se?) foi uma grande coincidência. E falo disso com propriedade, conheço o Pinatubo, aquele sacana, ele nunca fez o tipo salvador do Humanidade.

Preciso dizer também que, mesmo sentindo-me profundamente lesado por esse tipo de humilhação, nunca foi obrigação minha minimizar o aquecimento da Terra. Foi o homem que arrumou essa encrenca, pois ele que a resolva. Quando eu nasci, além dos políticos, aeroportos, turismo europeu, caos urbano e dedos em riste, também não estava lá o aquecimento global antropogênico (este mesmo, causado por vossa senhoria que me lê agora). Até mesmo o Hekla, camarada de longa data, teve seu nome envolvido na catarse meteorológico-apocalíptica: em virtude do medo de novas erupções, estão acordando até quem está quieto há 600 anos. Isso porque o megalomaníaco Katla ainda não se manifestou aos temores que as forças internacionais têm manifestado ao seu respeito. Feliz mesmo é o Monte Olimpus, que está lá em Marte.

Em suma: peço apenas que, por Vulcano, deixem-me silenciar as minhas cinzas de erupção em paz. Quem sabe outros 200 anos de ausência despertem opiniões mais humanísticas a meu respeito. Gleðileg súmar! Amém.


* foto: brynjar gauti



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escrito por Renata Penzani - May 18, 2010