a arte existe pra gente não morrer de realidade


“Por que passei tantos anos sem escrever literatura? Por uma questão hormonal, talvez. Houve uma época em que, quando tinha uma ideia, saía correndo para os bares comemorar que tinha tido uma ideia. Hoje, quando tenho uma ideia, corro para o computador e escrevo. Os hormônios me incomodam menos agora, não me chamam tanto para o crime. Escrever é uma coisa muito física, muito ligada à vida concreta. Você precisa de condições mínimas: solidão, silêncio. Você não pode ter o coração aos pulos porque os credores estão dando picaretadas nas paredes ou porque sua mulher está transando com o vizinho. A realidade não pode morder sua canela o tempo todo. Você precisa botá-la ali, num cantinho. Tem que ter uma torre de marfim. Escritores descobrem a torre de marfim em diversos lugares. Cervantes, por exemplo, a descobriu na prisão de Madri, que não devia ser exatamente o Hilton Bangkok. O escritor necessita desse recolhimento. Precisa ter disponibilidade _e dinheiro, claro. Outro negócio que é bom para escrever é estar vivo. Tem de contar com isso. Na hora que não tiver mais, fica difícil. Quer dizer, depende de uma psicógrafa.”

É ou não é?

Do romancista Reinaldo Moraes, em entrevista para o jornal Cândido.

Texto emprestado do blog do querido Armando Antenore.



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escrito por Renata Penzani - March 01, 2012

Sobre gatos e pães


Em uma superfície de microfibra verde, Cairo, um legítimo Sphynx canadense, repousa as quatro patas e sustenta um olhar pungente, tentando fazer com que a sua elegância resista a um detalhe essencial: está com a cabeça enfiada em uma fatia redonda de pão de forma. Não bastasse a imensa variedade de sortilégios a que foram submetidos durante a Idade Média, ou o fato de terem sido incluídos, no século XV, na lista de seres hereges perseguidos pela Inquisição – sem contar as perseguições envolvendo tiros e paus na famosa cantiga popular –, os gatos agora experenciam uma nova forma de hostilidade: o Breading Cats.

O que parece uma mal fadada tentativa de se referir ao verbo em inglês “to breed”, cuja tradução é “procriar”, é na verdade um dos memes – comportamento ou ideia que, na internet, é repetido até o limite da exaustão – mais difundidos nas redes sociais desde que se tornou obsoleta a simples associação entre gatos e instrumentos musicais. Depois que Luiza voltou do Canadá, e que Carlos Nascimento bradou aos quatro ventos que “já fomos mais inteligentes”, era preciso que o mundo se rearranjasse para provar que, a despeito das opiniões contrárias, a internet continua – e não perderá a sua presteza para inutilidades. Por essas e outras é que o Breading Cats consiste, basicamente, em pessoas que envolvem as cabeças de seus gatos em fatias de pão sem qualquer razão aparente.

Imprestabilidades a parte, o fato é que o Breading Cats é a prova viva de um dos mais proeminentes imperativos da internet: participar. Kliff Kuang, colunista da revista americana The Fast Company, disse, certa vez, que “na internet, qualquer coisa que puder ser usada para se agir de forma estúpida, será usada de forma estúpida”. Sem querer, Kuang resume o que de mais sensato pode ser dito sobre a internet: longe de querer incrementar as tolices de alguém, ela apenas as torna visíveis para o resto das pessoas. Pois é exatamente essa visibilidade que parece ser a força-motriz do Breading Cats, onde bichanos de todas as raças, nacionalidades e preferências gastronômicas deixam-se emoldurar por um pedaço de pão. Alguns gatos – invarialmente sem muito poder de escolha – apenas miram seus olhares felinos para a foto, enquanto outros, mais audaciosos, boicotam o plano da única maneira que encontram: comendo o pão.

Apesar da notável presteza do brasileiro para criar e espalhar memes internet afora, as origens do Breading Cats, ainda que bastante incertas, não remontam ao Brasil. Segundo o Know Your Meme, um site que se presta basicamente a catalogar e explicar memes, a brincadeira começou em agosto de 2011, quando uma primeira foto – de autoria desconhecida – exibindo felinos vestidos em pães foi postada nos sites Reddit e Tumblr, incitando uma irrefreável onda de reblogs, compartilhamentos, recomendações e demais formas de difusão online. As fotos dos gatinhos chamaram a atenção por toda a parte, sendo alvos de incontáveis posts e artigos, sobretudo nos Estados Unidos, onde esse tipo de humor parece surtir mais efeito.  Não tardou para que um grupo de Facebook fosse criado, o “Putting bread on your cat, so that people think you have a walking sandwich” (em uma tradução livre: “Coloque a cabeça do seu gato em um pão, assim as pessoas vão pensar que você tem um sanduíche que anda”). O longo nome foi traduzido, nas dezenas de links de compartilhamento, de forma singela: “gato com cara de pão”. Até o momento em que este texto foi escrito, a página registrava números digno de nota: 18.897 “curtidas”, 6.359 pessoas “falando sobre isso” e mais de 420 fotos enviadas.

Como sugere o próprio nome, a brincadeira não é das mais complexas, e funciona sob duas regras fundamentais: ter um pão e um gato. Mas, ao que parece, o Breading Cats, mais do que seguir à risca o seu próprio nome, quer manifestar interesse por toda e qualquer coisa que possa ser panificável. Por isso, não faltam exemplares que burlam uma regra ou outra. Gatos envolvidos em massas de panqueca; gatos de pelúcia emoldurados em pão francês; gatos equilibrando pães de batata na cabeça; Isso quando a foto não rompe logo com ambas as regras: um cachorro encaixado numa tortilla de milho. Para os mais entusiastas, há também a possibilidade de, pela bagatela de 45 dólares, adquirir uma camiseta com os dizeres “I (desenho de um pão) cats”, que parece abstrair das implicações contraditórias de tal afirmação.

Já os comentários aos posts salientam preocupações de natureza logística, como a usuária que não consegue encontrar o pão adequado para acomodar a cabeça de seu gato – “meu gato tem uma cabeça enorme!”, diz. Os trocadilhos, fazendo jus ao nome do meme, também chegam aos montes: pessoas que dizem “humm, sanduíche de Kit-Kat” e que se orgulham à beça da nova conotação do verbo “to breed”. Julian Sanchez, um usuário do Twiiter, limitou-se a pontuar: “os alienígenas vão datar o colapso da civilização humana a partir daqui”. E, como não podia deixar de ser quando se trata de aglomeração excessiva em torno de um mesmo assunto, há os detratores ferrenhos que, embora estejam ajudando a engordar o número de acessos às fotos, não economizam comentários de desprezo absoluto: “ridículo” e “patético” são os adjetivos mais recorrentes, assim como a variação “vocês precisam de um psicólogo”, que aparece duas vezes embaixo de uma foto em que um Siamês aparece com dois pães dependurados às orelhas. Às críticas recebidas dos grupos protetores de animais, o Breading Cats responde: “Aparentemente, a maioria dos gatos não se importa. Provavelmente porque reconhecem o quão cool isso os torna” – e continuam, em tom de galhofa – “Sabe o que vai tornar o seu gato ainda mais fofo? Pão”. Afinal, apesar do que pode indicar o mote da campanha, o apreço pelos gatos está lá, advertido em letras garrafais na seção “About”: “Nós amamos gatos! Então, seja gentil com eles”.

As inspirações para a prática de panificar gatos são as mais diversas. Há quem diga que a referência maior é Oolong, um coelho japonês que, depois de ter a sua habilidade para equilibrar objetos descoberta pelo seu dono, ficou famoso na internet. E há os que sustentam que o Breading Cats é apenas uma forma de chacotear as possibilidades do referido verbo “to breed”. Seja como for, o trocadilho serve ao menos a uma função importante: apaziguar os mecanismos de busca do Google, que, confuso, poderia vir a sugerir: “você quis dizer ‘breeding cats’”. De uma forma ou de outra, não seria de se admirar que os pobres gatos, prevendo o destino que lhes espera, passem a querer abreviar ao menos algumas de suas 7 vidas.



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escrito por Renata Penzani - February 06, 2012

Dona Benê


Cidade universitária inspira novo ofício: a empregada-mãe


Já se passavam 20 minutos das duas da tarde de uma quinta-feira quando Dona Benê, abraço largo e sorriso cheio de dentes, chega para realizar com maestria sua segunda faxina do dia. O bairro é o Vila Nova Cidade Universitária, em Bauru, que, como sugere o nome, concentra a nata do alvoroço estudantil da cidade. Mal chega e já vai se munindo do equipamento que precisa para dar fim aos desmazelos universitários que vitimam banheiros, paredes, louças e demais ambientes residenciais pela Bauru afora. Vassoura, rodo, sabão em pó, luvas e alguns panos diversos depois, ela sentencia, com entonação bélica: “Agora ninguém me segura”, ao mesmo tempo em que lança um olhar incisivo para a pilha de louça que lhe aguarda na pia. Mais uma república ganharia ares de “casa de vó” naquela tarde insossa de Bauru.

Abrigo temporário de infindáveis universitários advindos de igualmente infindáveis cantos, a cidade do centro-oeste paulista, localizada a 320 km da capital, é mais uma entre as diversas cidades universitárias do Brasil a fomentar a continuidade de um novíssimo cargo profissional: a “empregada-mãe”. Pela denominação, entenda-se: toda e qualquer faxineira que transcende os limites da mera limpeza doméstica para adentrar ao complexo mundo das relações humanas estreitadas por broncas, conselhos, afeto e uma boa dose de bolos de cenoura. A empregada-mãe, esse quase-parente de disposição hercúlea, cuida não só do apuro dos móveis e azulejos das dezenas de repúblicas da cidade, mas também de dores de dente, desejos calóricos e narizes quebrados dos pobres filhotes desgarrados de seu ninho de origem – a famigerada casa dos pais.

Maria Benedita de Oliveira*, a Dona Benê, é uma delas. Varre, aspira, esfrega, lava e passa roupa e ainda garante a comida-de-vó de que todo universitário que se preze carece. “Cozinho de tudo pros menino, até comidinha de soja. Precisa ver, comem que nem uns esganados!”, confidencia Benê, de 57 anos. Ela trabalhou durante três anos numa mesma república, período que rendeu a maioria de suas histórias no ofício. Lá, moravam 7 de seus muitos “filhos”, como costuma chamar os universitários que contratam seus serviços. Viu alguns se formando e outros fincando o pé na faculdade – alguns deles já estão na vida universitária pelo oitavo ano consecutivo. Ao narrar os feitos de sua cria, se embevece dos que levam a sério o motivo pelo qual saíram da casa dos pais – a faculdade. “Teve até um que arrumou emprego bom, na Companhia Siderúrgica Nacional. Tá feito! Mas ele não ficava o dia inteiro atrás de porcaria, não, credo. Era o careta da turma”, conta, tentando justificar as causas de tamanha bem-aventurança. 

Fazendo jus ao dito popular segundo o qual “mãe é tudo igual, só muda de endereço”, Benê repreende e dá carinho na mesma proporção. “É um bando de folgado, mas a gente se apega, né? Até minha neta fala que eu pareço mãe deles. O que eu fico louca da vida é com essas porcarias que eles usam”, conta Benê. No dialeto dessa mãe aflita, “porcarias” são substâncias que os desviam da possibilidade de serem “bons meninos”, como diz. Dito isto, imaginemos nós a decepção de Benê quando descobria que os constantes pedidos por diferentes comidas e agradinhos gastronômicos não significavam exatamente que os meninos tinham fome. Ela franze as sobrancelhas e fecha o sorriso para se indignar devidamente com o que conta: “Um dia me pediram aquele bolo. Foi tanta encheção que acabei fazendo. Comeram que nem doido, precisa ver, depois era um monte de marmanjo caído pela casa. Aí sobra pra mim”, lamenta ela, que já chegou a cuidar de um rapaz que, num momento de fragilidade etílica, caiu e quebrou o nariz.

Além disso, a pobre mãe que padece diariamente em múltiplos paraísos – numa adaptação pós-moderna de outro dito popular – também se vê obrigada a chamar os filhos pelas alcunhas recebidas na faculdade. Guilhermes, Pedros e Augustos são reduzidos a nomeações como Fumaça, Montanha, Gorfo, Cebola. Benê usa todos sem qualquer problema, e não se intimida com os mais constrangedores – como, por exemplo, um que faz clara alusão ao órgão sexual feminino – mas às vezes deixa escapar um carinhozinho em forma de vocativo. “Outro dia, o Gui me ligou. Desesperado, o menino. Estava com as roupas sem lavar. Lavei, né”, relata uma derretida Benê. Mãe é mãe – ainda que assalariada.

Mas se engana quem pensar que Dona Benê é só mimos e sutilezas. Quando é preciso, ela sabe bem impor o respeito que merece. “Eu digo ‘menino, cê me respeite’, não fuma esse negócio na minha frente, não!’. Evito a baixaria” conta ela, que lastima: “Ando tanto com eles que as pessoas devem achar que eu também uso. Sempre me oferecem. Eu, hein?!”. Consciente de que seu papel materno é secundário na vida desses rapazes, ameaça: “Queria mesmo é que a mãe deles aparecesse, eu ia contar tudinho!”, diz, simulando um tom de bravura que se desfaz no próximo sorriso.

Por ser dotada de um peculiar bom humor – “e adianta eu ser triste?” – e palavreado sempre atualizado de acordo com o linguajar jovem, Dona Benê acompanha os “filhos” em festas, churrascos e demais confraternizações regadas a proporções dantescas de álcool e marmanjos. Benê já esteve até mesmo no Interunesp, tradicional festa universitária organizada por membros das Atléticas de todos os campi da Universidade Estadual Paulista. Ela já se aventurou três vezes entre as cerca de 50 mil pessoas que a festa costuma reunir. Vítima constante de chantagens emocionais, ela foi chamada para cozinhar e garantir um mínimo de dignidade à chácara alugada pelos “filhos”. Na ocasião, ela foi apresentada às mais diversas fraquezas humanas: submissão a substâncias ilícitas, propensão incontrolável a ingestão excessiva de comida, impotência diante das leis da gravidade, ausência de presteza para o consumo moderado de álcool e outros fardos humanos. Nos quatro dias de festa, foram arranjadas pela mãe de aluguel cerca de 3 refeições diárias, totalizando 12 substanciais e apetitosos cardápios. “Faço uma comida de primeira, só não gosto de cozinhar em lugar sujo”, conta, fazendo careta, como que refazendo mentalmente toda a sorte de imundícies que já enfrentou na vida. Dona Benê, com o digno intento de sobreviver à temporada, tratou de levar a neta Gabriela, de 15 anos, para lhe fazer companhia. “Apesar de tudo, a gente se diverte”, garante ela, exibindo um sorriso de avó de desenho animado.

Dona Benê mora no Geisel, um bairro afastado do nicho universitário bauruense. Apesar da distância, vai ao trabalho a pé todos os dias para garantir o exercício físico de que o cansaço lhe priva. Mas quando lhe sugerem que tome uma condução, responde, convicta: “Meu filho me oferece carona, mas no carro não encontro ninguém pra conversar”. Além da disposição quase-infinita e da positividade inabalável, outra característica é constante em Dona Benê: a certeza de que está no melhor emprego do mundo. “A gente se diverte, ri. De que adianta ficar reclamando? Não tenho nenhum problema grande, não”, alivia-se Benê, que limparia, naquele mesmo dia, dois banheiros cuja população de fungos e demais parasitas verdes seguiam fazendo as vezes de azulejo.


* A querida Dona Benê me pediu que omitisse o seu nome completo, portanto, este nome é fictício.



Tags: Crônica
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escrito por Renata Penzani - February 01, 2012

Vontade e movimento


Ela alisava os fios da franja como se aquele penteado fosse o início de uma epopeia. Eu, com a cabeça recostada no espaldar da cadeira, demorei um tempo para entender qual era a sua intenção com aqueles gestos repetitivos de alisa, estica e puxa – e estica, puxa e alisa um pouco mais. Posicionando um espelho bem diante do seu nariz, a senhora levantava os olhos e girava o rosto para os lados, tentando adivinhar o melhor ângulo para garantir o sucesso de sua empreitada. Estava munida de não mais do que um pente um e o referido espelho, mas agia como se portasse a solução para os males do mundo. O cabelo era curto e revolto, de um grisalho esponjoso: um ex-acaju em processo de redefinição. Passados alguns minutos, o apanhado de fios se aquietou, e devolveu ao rosto que antes parecia, como o cabelo, também revolto, uma borrifada de leveza. O cabelo daquela senhora, sentada num ônibus rumo a qualquer lugar às 3 tarde, era o seu pequeno projeto, como todos aqueles – eu iria descobrir mais tarde – em que as pessoas se empenham enquanto algo maior não acontece, a fim de que as vontades e o desejo irreparável de transformação, ainda que de cabelos revoltos e desbotados, não passem mais do que 10 minutos em completo abandono.



Tags: Contos;
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escrito por Renata Penzani - January 31, 2012

Precisa fazer sentido?


Felizmente, o mundo não se furta de nos brindar com aquelas coisas que você vê, pensa “como eu não vi isso antes?” e imediatamente se irrita duplamente: primeiro, porque de fato não havia visto ainda e, depois, porque teve de nutrir, ainda que por alguns segundos, um pensamento tão pouco original.

A pequena animação The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore (em uma tradução livre, Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore), de William Joyce e Brandon Oldenburg, é uma dessas coisas. Não por menos, o filme está indicado ao Oscar, na categoria melhor curta-metragem de animação (short film animated).

Quando vemos a descrição que o acompanha no site em que está postado (assista aqui), é impossível não investigar mentalmente qual a sua relação com os referenciais que menciona. O Mágico de Oz? Buster Keaton (tido como o “segundo pai” do cinema mudo)? Furacão Katrina? Os significados por trás dessas inspirações não são difíceis de intuir, embora uma associação bastante lógica que se possa fazer é que o filme foi inspirado em um dos contos de Borges ou Cortázar – que dirá o personagem borgiano Ireneo Funes, arruinado por não conseguir esquecer de nada. Mas a descrição que melhor define Morris Lessmore pode estar um pouco mais abaixo no texto: Morris Lessmore é uma história sobre pessoas que devotam suas vidas aos livros, e livros que devolvem o favor”. Simples como a trilha sonora que o embala. É, afinal, “uma alegoria sobre o poder de cura de uma história”. E é precisamente isso – ainda que muito mais – que vemos se materializar pelos 15 minutos de duração do curta.

O filme começa em New Orleans, com o personagem principal, um rapaz esguio e aprumado, sentado em sua varanda a trabalhar em seu livro – nas páginas, algumas pistas sobre dúvidas, amoreiras e mistérios. O clima leve que embrulha o personagem, bem ao estilo Woody Allen, uma música sendo cantarolada impunemente, é quebrado quando uma TV lhe passa voando. Em poucos segundos, uma espécie de vendaval irrefreável– numa representação um pouco mais fantástica do Furacão Katrina – acomete a cidade, e tudo o que lhe pertence, inclusive o livro de capa vermelha em que escrevia, é alteado pelos ares.

Passados esses momentos de maior ação do filme, o rapaz esguio que escrevia na varanda, assim como os seus vizinhos e demais habitantes, caem em um vilarejo difícil de assimilar, pois não economiza em livros que os saúdam acenando dos ares, e pessoas sendo transportadas pelo céu em um amontoado de livros coloridos fazendo as vezes de balões. 

É como se todas as palavrinhas saltitantes e faladeiras do projeto Save The Words http://savethewords.org/site.swf) ganhassem vida, mas, dessa vez, trouxessem o contexto de que saíram consigo. São milhares de livros dançando, rodopiando e viravolteando no que parece ser uma reprodução moderna da Terra de Oz. Cada uma querendo seduzir à sua maneira: não só as palavras, mas as histórias inteiras, em suas infindáveis possibilidades e acepções, convidavam uma a uma para uma aventura irrecusável. E a vida valeria a pena outra vez.

Rompendo com o que seria mais óbvio, a percepção do personagem não vai sendo transformada à medida que as coisas vão ganhando sentido, e sim quando ele aceita – e absorve – o absurdo. Isso é representado no filme de duas maneiras bastante simpáticas: a mudança do preto-e-branco para o colorido, e a evolução da obra pessoal do personagem (o tal livro de capa vermelha que lhe fazia companhia na varanda). No fim das contas, tudo isso é só uma forma de dizer que palavras alteram o sentido das coisas: seja na forma de uma frase que de alguma maneira nos recria, ou de uma ideia cansada de que a gente tem que abrir mão para dar lugar a coisas mais revigorantes. No próprio filme, tudo é entendido como um grande ciclo em que entender é o menos importante – sobretudo nesse mundo fatigado de discursos e explicações, até mesmo a ausência das palavras pode significar muito. E, lá pelos 10:25, o livro aberto do protagonista deixa escapar a explicação que nada quer explicar: “Isso importa? Se a vida é apreciação, precisa fazer sentido?”.

Com mais ou menos efeitos deslumbrantes e musiquinhas cantaroláveis, não deixa de ser essa a angústia que a gente tem de vencer todos os dias para chegar à tão superestimada felicidade: o medo de que as coisas nunca mudem – e, estranhamente em igual proporção, o medo de que as coisas mudem. Entender – aqui, na vida ou no filme – não é o mais importante, desde que a vida continue trocando, com sutileza e alguma frequência, o preto-e-branco pelo colorido. Como já disse Guimarães Rosa, “tudo, aliás, é a ponta de um mistério”.

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore está disponível na forma de aplicativo para iPad (os screenshots são adoráveis!) aqui:


http://itunes.apple.com/us/app/the-fantastic-flying-books/id438052647?mt=8&ign-mpt=uo%3D4 



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escrito por Renata Penzani - January 30, 2012

Medo de gente


            Subiu no metrô. Era ali que as fobias humanas ficavam todas à flor da pele, à espreita da primeira brecha da coragem e do autocontrole. Olhou para o vagão lotado e as primeiras palpitações deram sinais. Ela suspirou, ajeitou as mangas da camisa querendo disfarçar o nervosismo e correu os olhos pelo lugar como quem faz vigília: nenhum semi-conhecido. (tinha horror de semiconhecidos, essa subraça humana sobre a qual a dúvida paira: cumprimentar ou não cumprimentar? Com a certeza estabelecida, escolheu um lugar estratégico – perto da porta, o que aliviava qualquer necessidade de fuga pela tangente, e ao lado do corredor, o que facilitava uma ação rápida se algum conhecido indesejado entrasse no vagão. Conhecia todas as nuances de seu medo de gente, e sabia como domar todos eles com estratégias estranhas.

Sentou-se. O lugar estava todo cheio de gente que não se olhava – e por isso era fácil estar ali. Gente que afundava nos próprios livros, revistas, jornais, guias de viagem, palavras-cruzadas. Gente que finge interesse nos botões da camisa, nos folders de propaganda, nas próprias unhas. Gente que finge que lê uma nova mensagem no celular, e que até se dá ao trabalho de interpretar um sorrisinho pós-bip, para alimentar a fantasia alheia, que adora imaginar vidas mais coloridas. De certo, um novo namorado, uma amiga que acaba de lhe comprar um presente genial, uma proposta de emprego irrecusável, algum amigo expressando saudade via SMS – exceto pelo detalhe de que não havia mensagem alguma.

            Estava ela nesse universo de fingimentos confortáveis quando lhe invadiu um sentimento avassalador: pertencimento. Ela também era um pouco aquela gente. Recolhia-se nos fones de ouvido, chacoalhava-se sem música alguma sob o alívio de que ninguém sabia que a bateria havia acabado há meia hora atrás. Também fitava o celular mesmo que não tivesse nada para checar ou ninguém para contatar. Também analisava as próprias unhas ou ajeitava os pertences da bolsa para simular ocupação. Era mesmo fácil estar ali.

            Mastigou e engoliu aquela certeza enquanto varria o lugar com os olhos arregalados. Observou os canos de ferro agarrados com força por mãos sem par – quase todos usavam uma para se segurar, e a outra ficava a cargo da simulação, como segurar um livro, enrolar os cabelos, estalar os dedos, batucar um batuque qualquer na coxa da perna. Botou reparo nos pés inquietos, sempre balançando – cada um no seu ritmo, cada qual na sua angústia.

            Foi nessa muda comunhão de TOCs sociais que ela contraiu uma certeza aguda: o homem não é uma ilha, o homem quer ser uma ilha.

            Sossegou os pertences todos no banco ao lado, querendo pensar melhor, saborear melhor aquelas descobertas. Ouviu um ruído que mais pareceu uma risada e virou-se para o lado. Ao seu lado, havia um homem. Meia-idade, cabelos quase grisalhos e um sorriso cheio de dentes. Ele sorria como quem realmente quer sorrir e ela achou um desrespeito não sorrir de volta. Um pedido de desculpa pelos objetos descarregados em seu colo, um comentário bobo sobre qualquer coisa sem importância e estavam a um passo do impasse que se finda entre duas pessoas quando elas já exploraram o terreno da função fática. Ela tascou um “ai ai”. Ele resmungou qualquer som como quem não sabe como concordar com um “ai ai’. Meio segundo de constrangimento. E o olhar compassado, sincrônico. Os dois olhares se olham e se lêem, escutando os pensamentos do outro: medo. São dois olhares em uníssono. Com isso, o assombro. Da facilidade de estar ali, ela passou para o pavor irreparável de ser não somente notada, mas lida.

            Ela suspirou, ajeitou as mangas da camisa querendo disfarçar o nervosismo, e voltou a se ocupar das próprias unhas.



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escrito por Renata Penzani - January 29, 2012

Foi na Feira do Livro que eu aprendi


* Deslumbramento
des.lum.bra.men.to
sm (deslumbrar+mento2) 1 Ação ou efeito de deslumbrar. 2 Ofuscação momentânea causada por uma luz muito forte. 3 Perturbação da vista ou cegueira momentânea devida a uma vertigem ou outro incômodo cerebral. 4 Assombro, fascinação, maravilha. Var: deslumbrância, deslumbre.

 

 

 

            Ao observar as crianças que chegavam, atentei às características que as diferenciavam. Algumas meninas tinham fitas de cetim no cabelo, dessas envelhecidas por um cor-de-rosa desmaiado – o que fazia parecer um impropério chamá-las de cor de rosa. Outras tinham os cabelos presos no alto da cabeça, com pomposos elásticos enfeitados por princesas de acrílico e brocal, cintilantes como toda a vida que tinham pela frente. Aquelas crianças eram diferentes até mesmo no rabo de cavalo: algumas tinham-no preso pela altura dos ombros; outras, ostentavam um penteado ereto, com ares de cigana oriental.

            Todas entravam pulando e gritando, crianças que eram, a tangenciar a educação que receberam – ou, ao menos, que deveriam ter recebido. Dividiam-se em dois grupos, inevitáveis e dicotômicas em suas características. Além da divisão óbvia entre pobres e ricas, apartavam-se também em um outro tipo de pobreza: a de empatia.

            As do primeiro grupo, sempre mais dispostas e mais saltitantes, eram, sim, as mais barulhentas e bagunceiras, o que poderia ser facilmente interpretado como falta de educação. As do segundo grupo, porém, mesmo que também gritando e saltitando, corriam com menos pressa e sorriam com menos brilho. Foi quando percebi que o elemento responsável por separá-las em dois grupos não era representado por um cifrão. Não era uma visível desigualdade social que as distanciava frente à minha observação atenta: era a esperança.

            Tainá, de 9 anos, pertencia ao primeiro grupo, e, logo que chegou perto dos livros, foi barrada pela professora que, indignada com a correria da pequena, não soube conter sua desavisada autoridade. Ao perceber sua criancice reprimida, Tainá aquietou-se num canto, contida feito adulto, a procurar refúgio na calma de um livro. O volume era cor-de-rosa – este, sim, vivo como a flor que lhe deu o nome – ilustrado e de capa dura. Foi o suficiente para crescer o brilho nos olhinhos da menina. Ela manuseava O Segredo dos Bichinhos da Floresta com cuidado e disciplina impecáveis, tamanha era a bronca que dava nos amigos que vinham cheios de mãos para cima de seu refúgio. Aquele, fingia, era só dela. Por isso é que se demorava com o livro nas mãos o mais que podia, alisando sua capa e observando todas as figuras: por saber que não seria seu, é que Tainá fingia que era. Mas a menina, ainda que apaixonada por seu porto, desancorava-se facilmente, quando lembrava que não era, ainda, dona dele. Olhava para a etiqueta de preço grudada na contracapa, a culpada por sujar sua fantasia com as cores da realidade.

            As crianças do segundo grupo pareciam desconhecer a facilidade de encantamento de Tainá, e pouco demonstravam dominar suas habilidades teatrais. Não faziam de livro nenhum seu refúgio, e tampouco aquietavam-se nos cantos – ao contrário, pareciam dominar o ambiente todo, e não somente suas arestas. A gritaria e correria eram implacáveis, e não se deixavam frear por uma simples estante colorida. Corriam os olhinhos pelos livros com muita rapidez, olhando tudo ao mesmo tempo, sem atentar para nada que não fosse excessivamente cintilante – e, proporcionalmente, caro. Sua criancice era disfarçada por uma espécie de maturidade imposta, forjada numa pressa e numa falta de concentração que não combinavam com a idade e as roupas coloridas. Pareciam conhecer todos aqueles volumes, e apenas um ou outro conseguiam segurar seu interesse escorregadio. Corriam descontrolados pelas estantes sem perceber quando derrubavam uma ou outra coisa e desorganizavam as prateleiras. Seu respaldo eram as notas de 20 e de 50, que chacoalhavam satisfeitos sempre que condicionavam seus objetos de desejo a um preço. Sem discernimento para diferenciar uma nota de cinqüenta de outra de cinco, estavam convencidos de que qualquer item ali poderia ser seu. Por isso é que se entediavam rapidamente, deslizando seus tênis-patins para outra freguesia.

            Clarissa, 8 anos, parece ter economizado fôlego a vida inteira para dizer o que disse tão rápido. Com as palavras escapando da frase, disse: “Fica olhando esse esse que eu já volto”. O que ela quis dizer, descobri mais tarde, é que ela que iria almoçar com os colegas e que logo voltaria para buscar o livro que gostou, ao mesmo tempo em que implorava para que eu o guardasse. Depois de 15 minutos, voltou, gabando-se do salgadinho de milho que comera à sombra da calçada, e caçoando da fome que eu tinha e que ela parecia ter adivinhado – “Eu almocei na árvore”, disse.

            O fato é que todas aquelas crianças – as do primeiro e as do segundo grupo –  agiam como se soubessem que poderiam ser como as princesas que protagonizam os livros, ou como os heróis a superar seus calcanhares de Aquiles. Por isso, nem se davam ao trabalho de sonhar em ser. Não desperdiçavam sonhos com obviedades, como se quisessem guardá-los para feitos um pouco mais impossíveis. Um sonho, afinal, precisa fazer jus à grandeza de sua realização.



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escrito por Renata Penzani - May 28, 2011

Acervo feito de gente


Esse texto aí embaixo foi escrito para a revista Continuum, do Instituto Itaú Cultural, seção Deadline, voltado a projetos de reportagem de estudantes de jornalismo. Oportunidade linda de conhecer pessoas igualmente lindas, como a dona “neuza-com-zê-guerreiro-de-carvalho” e o pessoal todo do Museu da Pessoa.

A versão reduzida do texto está no site da Continuum: www.itaucultural.org.br/continuum

E a reportagem está publicada na edição de janeiro/fevereiro da revista. Vale muito ler, está ótima.

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Colecionar selos, moedas, cartas, tampinhas de garrafa. A necessidade de preservar coisas significativas é natural do ser humano. Mas nem só de numismática, filatelia e outros quiprocós semânticos é feito o colecionismo. Esses que são apenas nomes complicados para denominar uma mesma vontade, não conseguem suprir uma necessidade mais incisiva: a construção de uma memória social. Foi com essa preocupação que surgiu, em 1991, o Museu da Pessoa, acervo virtual de histórias de vida, que está aí para pontuar que a vida é passageira e que é preciso reter – se não a História inteira, ao menos alguns pedaços importantes das pequenas histórias que a compõe.

Desde a Idade Média, quando surgiram os primeiros museus, o homem constrói sua identidade com base nas lembranças. Os museus, mais do que áreas de preservação, tornaram-se testemunhas da História que já aconteceu e ancoradouro da que ainda iria acontecer. Nesse sentido, o que pode ser mais decisivo para a construção da grande História do que as pequenas histórias? Histórias simples, como a de Ana Maria, que tinha uma galinha chama Miss Brasil, ou a de Mestre Alagoinha, que construiu a duras penas a maior biblioteca rural do Brasil. “Não tem nada mais precioso para entender o mundo do que ouvir as pessoas. É muito simples: toda história de vida é importante: desde o porteiro até o presidente da República”, facilita a historiadora Karen Worcman, fundadora do museu e maior entusiasta de sua metodologia, que o define em palavras simples: “uma metáfora do mundo narrada pelas próprias pessoas”. Mas é sob a complexa responsabilidade de resguardar anônimas narrativas sociais que funciona o museu; hoje, ele preserva um acervo de aproximadamente 12 depoimentos, 72.000 fotos e documentos e 168 projetos nas áreas de educação, comunicação, memória institucional e desenvolvimento social.

Apesar de seus arquivos serem virtuais, o Museu da Pessoa tem sede em São Paulo. A metodologia do projeto inspirou outros países, e hoje ele tem mais três núcleos: Portugal, Canadá e Estados Unidos. O do Brasil foi o primeiro. É de um sobrado modesto da Vila Madalena que saem certezas de que a emaranhada teia da memória social está sendo bordada a pontos pequenos. Ao entrarmos lá, podemos sentir o peso da memória. Nos quadros, fotos, livros e documentos de acervo estão histórias que os jornais nunca noticiaram. Suas paredes, encharcadas de lembranças, poderiam contar sozinhas a história de um Brasil em elipse. O Museu da Pessoa é aberto a todo mundo, e seu estúdio de gravação fica disponível para qualquer pessoa que queira contar a sua história – basta agendar um horário. Sabrina, a mocinha que cuida da limpeza do museu, faz questão de frisar, num sorriso de orelha a orelha: “quem sabe um dia eu também conto a minha?”.

Rubem Braga dizia que “os jornais noticiam tudo, mas esquecem algo fundamental que acontece todos os dias: a vida”. Talvez nem todo mundo dê valor a isso, mas é desse material humano que compõe a narrativa única da qual todos fazemos parte que é feito o Museu da Pessoa. A história da mulher que tinha uma galinha chamada Miss Brasil. O rapaz que construiu sozinho a maior biblioteca rural do Brasil. A brincadeira de amarelinha da moça que nasceu em Recife. Histórias comuns de gente anônima, que não precisam de nenhum celebritismo para integrar a memória social.

O Museu da Pessoa prima pelo escorregadio da vida, pelo o que as lembranças têm de intangibilidade. Afinal, o que leva as pessoas a quererem contar suas histórias? Para Gustavo Ribeiro Sanchez, responsável pelo acervo do museu há 3 anos e meio, um dos motivos é a “efemeridade da existência humana, a agonia de sermos passageiros”.  Desejo de se eternizar, urgência de reflexão sobre o passado, nostalgia: são incontáveis os porquês, e, no museu da Pessoa, essas interrogações são reduzidas a uma certeza: todos eles são importantes.

É impossível ignorar, porém, que a História é uma ação que se dá no presente, e, por isso, os documentos, fotos, depoimentos em vídeo e textos transcritos do Museu não são – ainda bem! - capazes de abarcar a memória inteira. Pedaços dela ficam elípticos num olhar cabisbaixo, num estalar de dedos, em toda uma conotação corporal que fala mais do que a oralidade. “Memória não é lembrar tudo, ela é muito mais esquecimento”, filosofa Gustavo.

 

 

O que lembro, tenho

 

“Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo”. Assim se define Irineo Funes, personagem do conto Funes, El Memorioso, de Jorge Luís Borges, que narra a agonia de um homem que se lembra de absolutamente tudo. Se o esquecimento é uma defesa para que não enlouqueçamos com nossas próprias memórias, não é por esse receio que dona Neuza, depoente do museu há mais de dez anos, deixa de relembrar suas histórias.

Neuza Guerreiro de Carvalho – “Neuza-com-zê-guerreiro-de-carvalho. Gosto que escrevam completinho. Meu nome é minha identidade” – tem 80 anos e conta suas histórias ao Museu desde 1997. Ela começou por conta de um presente de família: um diário do avô de seu marido, datado de 1872, que fez surgir nela a vontade de escrever a história da família. “Fui escrevendo, escrevendo, mas nunca me preocupei com o que aquilo iria virar. Pra mim, era só um registro que queria deixar pros meus filhos”.

De 97 pra cá, dona Neuza acumulou mais de 15 pastas – “dessas grossonas, sabe?”, ela faz questão de frisar – só sobre sua vida, sem contar as dos parentes todos, entre avós, irmãos, primos e agregados: registros de uma vida inteira passada a limpo. No Museu da Pessoa, ela tem dezenas de textos transcritos, fotos, documentos e um vídeo unitário sobre sua vida com duração de 4 horas. Além de banco de dados da família, esse material se tornou documento de pesquisa histórica: “Acabei de tornando um repositório de registros. Por eles, dá pra perceber o quanto evoluiu ou involuiu a sociedade”. Ela conta ainda, os olhos brilhando de satisfação, que os netos, quando arrumam namorada nova, vão fuçar nas pastas para impressionar a garota. “Sinto que eles têm orgulho”. O sentimento é perfeitamente justificável, afinal, quantas coisas durarão para além do nosso esquecimento?

Dona Neuza diz que não é saudosista – “As pessoas dizem que antes era melhor. Era nada!” –, e quando questionada sobre o porquê de todo esse resgate, ela responde: “A identidade da gente fica reparada. É uma maneira de eu me sentir enraizada”. E quando sugiro que utilize as plataformas digitais pra armazenar suas histórias para livrar as tais 15 pastas do peso de uma vida inteira, ela é incisiva: “prefiro manusear”.

Pode ser por necessidade, vontade, orgulho e – por que não? – um pouquinho de medo, que o homem criou diferentes maneiras de guardar suas lembranças. Não importa se representadas por tampinhas de garrafa amontoadas numa caixa de sapato ou por uma imensa indumentária de guerra preservada em um museu, o homem é feito de tudo aquilo que tem para lembrar.

Seja como for, o desejo de reter partes significativas de um período histórico ou contexto social, ao menos entre as paredes do Museu da Pessoa, continuará resguardado nas histórias dos Josés, Marias e Raimundos de um Brasil que acontece todos os dias. Não é por acaso que Riobaldo Tartarana, personagem de Guimarães Rosa, atordoado com a urgência de possuir sua própria história, diz, em um trecho de Grande Sertão Veredas: “o que lembro, tenho”. Essa frase deixa escapar a ideia de que lembrança guardada é posse e, mais do que isso, não é a melancolia de um passado encerrado, mas uma memória que continua, uma vida que se recobra na lembrança e que por isso mesmo é viva. Cada história que compõe a História é um mundo que revela outros mundos. Este é o movimento que faz o mundo girar. Como diria dona Neuza, “a história é uma coisa progressiva; enquanto eu não morrer, ela vai continuar a ser escrita”.



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escrito por Renata Penzani - January 31, 2011

“Por que choram tanto as nuvens e cada vez são mais alegres?”


Linda, como sempre. A um só tempo inopinada e oportuna, chega sempre nos momentos em que estamos prestes a afundar em pensamentos. Que ironia, vejam só! Logo ela, impedindo afogamento. Percebemos sua fraqueza, seu vir-não-vir, sua singela forma de mostrar presença. Num minuto, é timidez, hesitação sem alarde. No outro, é extravagância, exagero estrambótico. Reconheço-a nas duas formas. Seu barulho chega antes da sua presença. Primeiro a escuto, depois a vejo – às vezes nem vejo, só ficando escutando, seus ruídos me bastam para saber que está lá. Se são intensos, percebo uma certa braveza, uma vontade de dizer alguma coisa que não diz nunca, mas que vivo tentando adivinhar. Comungo do seu alarde e logo se agitam uns pensamentos revoltos. Tempestade. Se são barulhos de sossego, aceito a melancolia e também me aquieto. Garoa fina. Mas algumas vezes, quebro o pacto mudo entre uma atitude e outra e vou expiá-la, a exibir o que lhe escorre. Pode ser prevista, intempestiva, mansa, fina, tórrida, ácida. De estrelas, areia, meteoros. De líquido, de pedra ou em forma de bolinho que acompanha café quente. Determina humores, atrasa os dias e alaga tudo quanto é rua e pensamento. Põe o agora pra depois – é mais penoso viver na chuva. Torna tudo chuvoso – até as pessoas. Resmunga e silencia na mesma proporção, e é como se reclamasse que já foi nuvem branca, calmaria, céu azul. A chuva é triste? Encharca todo mundo, mas nunca se enxuga. Incontáveis guarda-chuvas, e ela continua solta, a incitar as ventanias. Deixa-se diluir, mas sempre acaba num verso que redunda: a chuva chove. Chora, chora, e nunca desaprende a ser alegre. Chove, chove e nunca esvazia. A chuva é a gente mesmo, só que escorre.



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escrito por Renata Penzani - January 05, 2011

Brincar de palavra


           

Há poucas relações tão intensas, necessárias e genuínas quanto a do ser humano com a palavra. Mal haviam nos colocado no mundo e lá estávamos nós, aprendendo uma porção de coisas para substituir a capacidade que ainda nos faltava. Aprendemos choros, grunhidos, gemidos e gritos retumbantes porque ainda não tínhamos o dom da fala - simples subterfúgios paliativos. E foi só adquirir para logo depois desaprender tudo de novo. “Não tenho palavras”, dizemos, sempre que temos muitas. Aí, passamos a aprender novas coisas para substituir as tais palavras em elipse. Aprendemos o olhar, o toque, o sorrisinho amarelo de canto de boca, o abraço. Só porque queríamos elas – as palavras, malandras, que nos fogem quase sempre. Que o digam os escritores, vítimas constantes de seus hiatos criativos. Mas que o diga também qualquer ser que é vivo e precisa se comunicar.

A palavra é o meio pelo qual expressamos o que nos passa por dentro, e a via pela qual quase sempre escapa o que realmente queríamos ter dito. Mas é só olhar para o mundo para poder afirmar, sob a tônica de um vencido, um absurdo urgente: banalizaram as palavras!

Diz-se qualquer coisa em qualquer contexto com qualquer palavra. Não pretendo, com isso, resvalar no superestimado “todos dizem eu te amo”, mas na constatação de que ninguém mais escolhe suas palavras, ninguém mais apalpa os seus significados ou explora suas milhares de conotações e denotações. Ninguém quer experimentar várias palavras para descobrir qual emociona mais – ou qual fere menos. Vivemos negligenciando seu poder de bala, sua irreversibilidade. Não queremos saber se redundam ou complementam, ofendem ou glorificam, se comunicam ou fazem ruído. Pobre palavrinha, deixou de ser o brinquedo da linguagem. “Não brinco de brinquedo, brinco de palavra”, já disse Manoel de Barros. E o lúdico se perdeu.

Mas eis que um projeto muito simples me fez recuperar a fé na palavra e recobrar minha afeição pela etimologia.  Trata-se de um site, criado pelo Oxford English Dictionary, que funciona sob uma premissa muito simples e bonitinha: adote uma palavra e ela não morrerá. No melhor estilo naive a la Phoebe Buffay, o Save The Words exibe milhares de palavrinhas que saltitam em seu monitor, palavras carentes de alguma utilização, de alguma vida útil fora dos dicionários.

Se colocada em prática, essa ideia colocaria fim em muitos incômodos da vida contemporânea: os discursos redundantes, os cacoetes que nos perseguem, os infindáveis sinônimos que padecem de nosso desprezo coletivo. Ok, exagero. Mas, descontada a dramatização, trata-se de algo perfeitamente possível a ideia de usarmos uma nova palavra a cada dia. Seria a tranqüilidade das palavras que já foram saturadas. Seria o último suspiro dos textos que resumem “as armações do barulho” de nossas sessões da tarde. O sossego derradeiro do preconceito à linguagem. Afinal, todos nós bem sabemos o quanto pode ser desestimulante ter sua palavra preferida inserida em algum contexto de potencial banalização.

Os adjetivos são as maiores vítimas dessa verborragia desenfreada que se faz por aí. Em tempos como esse, não se pode tascar “divertido” em um texto ou conversa sem soar como uma vinheta de desenho animado. Ou ainda sair ileso de qualquer aplicação social que envolva mais de duas pessoas de palavras como “confusão”, “chocante”, “irado”. As pessoas simplesmente ignoram os significados literais em nome de uma espécie de bullying lingüístico. Isso para economizar as palavras que remontam a tempos áureos da etimologia, cujo maior representante ortográfico pode ser “supimpa”. È como ter suas roupas coloridas preferidas afanadas pelo estilo Restart – veja que até mesmo “preferidas” pode soar como algo advindo de uma enquete ginasiana. Você sempre usou, gostaria de continuar usando, mas opta por não fazê-lo porque o contexto te condena. 

O fato é que eu – assim como Eliane Brum segreda neste texto – também sempre quis que me perguntassem qual é a palavra de que gosto mais – nem que fosse para ficar com uma completa cara de tacho e perder o sono por noites afora em busca de uma resposta. Repare, por exemplo, que, aqui, a palavra “tacho” ganha a licença poética que lhe foi privada nesse tempo todo. Padecemos de uma repressão etimológica terrível, em que não podemos usar as palavras que queremos sem ganhar rótulo disso ou daquilo. Descanse em paz, preconceito vocabular. Daí a urgência do savethewords.org: é a redescoberta das palavras esquecidas em nome da democratização do vocabulário banalizado. A Língua Portuguesa clama por um projeto assim em terras tupiniquins – estou aqui à disposição, aliás. Adotemos uma palavra nova por dia e poderemos desfilar os nossos verbetes preferidos sem parecermos cafonas, saudosistas ou metidos a intelectuais. “Quem não vê bem uma palavra não pode ver uma alma” – a frase de Fernando Pessoa nos lembra do óbvio: somos feitos, proporcionalmente, de palavras e silêncios. Somente entupindo nosso vocabulário de palavras fresquinhas e novas é que vamos conseguir que continue tão poética a mal disfarçada expressão “estou sem palavras”. Que assim seja sempre que tivermos muitas.

* Foto da querida amiga-irmã Paula Machado



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escrito por Renata Penzani - January 02, 2011