February 2012
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Sobre gatos e pães
Em uma superfície de microfibra verde, Cairo, um legítimo Sphynx canadense, repousa as quatro patas e sustenta um olhar pungente, tentando fazer com que a sua elegância resista a um detalhe essencial: está com a cabeça enfiada em uma fatia redonda de pão de forma. Não bastasse a imensa variedade de sortilégios a que foram submetidos durante a Idade Média, ou o fato de terem sido incluídos, no...
Feb 7th
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Dona Benê
Cidade universitária inspira novo ofício: a empregada-mãe Já se passavam 20 minutos das duas da tarde de uma quinta-feira quando Dona Benê, abraço largo e sorriso cheio de dentes, chega para realizar com maestria sua segunda faxina do dia. O bairro é o Vila Nova Cidade Universitária, em Bauru, que, como sugere o nome, concentra a nata do alvoroço estudantil da cidade. Mal chega e já vai se...
Feb 2nd
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Vontade e movimento
Ela alisava os fios da franja como se aquele penteado fosse o início de uma epopeia. Eu, com a cabeça recostada no espaldar da cadeira, demorei um tempo para entender qual era a sua intenção com aqueles gestos repetitivos de alisa, estica e puxa – e estica, puxa e alisa um pouco mais. Posicionando um espelho bem diante do seu nariz, a senhora levantava os olhos e girava o rosto para os lados,...
Feb 1st
January 2012
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Precisa fazer sentido?
Felizmente, o mundo não se furta de nos brindar com aquelas coisas que você vê, pensa “como eu não vi isso antes?” e imediatamente se irrita duplamente: primeiro, porque de fato não havia visto ainda e, depois, porque teve de nutrir, ainda que por alguns segundos, um pensamento tão pouco original. A pequena animação The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore (em uma tradução livre,...
Jan 31st
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Medo de gente
            Subiu no metrô. Era ali que as fobias humanas ficavam todas à flor da pele, à espreita da primeira brecha da coragem e do autocontrole. Olhou para o vagão lotado e as primeiras palpitações deram sinais. Ela suspirou, ajeitou as mangas da camisa querendo disfarçar o nervosismo e correu os olhos pelo lugar como quem faz vigília: nenhum semi-conhecido. (tinha horror de semiconhecidos,...
Jan 30th
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May 2011
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Foi na Feira do Livro que eu aprendi
* Deslumbramento des.lum.bra.men.to sm (deslumbrar+mento2) 1 Ação ou efeito de deslumbrar. 2 Ofuscação momentânea causada por uma luz muito forte. 3 Perturbação da vista ou cegueira momentânea devida a uma vertigem ou outro incômodo cerebral. 4 Assombro, fascinação, maravilha. Var: deslumbrância, deslumbre.                   Ao observar as crianças que chegavam, atentei às características que...
May 29th
February 2011
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Acervo feito de gente
Esse texto aí embaixo foi escrito para a revista Continuum, do Instituto Itaú Cultural, seção Deadline, voltado a projetos de reportagem de estudantes de jornalismo. Oportunidade linda de conhecer pessoas igualmente lindas, como a dona “neuza-com-zê-guerreiro-de-carvalho” e o pessoal todo do Museu da Pessoa. A versão reduzida do texto está no site da Continuum:...
Feb 1st
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January 2011
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"Por que choram tanto as nuvens e cada vez são...
Linda, como sempre. A um só tempo inopinada e oportuna, chega sempre nos momentos em que estamos prestes a afundar em pensamentos. Que ironia, vejam só! Logo ela, impedindo afogamento. Percebemos sua fraqueza, seu vir-não-vir, sua singela forma de mostrar presença. Num minuto, é timidez, hesitação sem alarde. No outro, é extravagância, exagero estrambótico. Reconheço-a nas duas formas. Seu barulho...
Jan 6th
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Brincar de palavra
            Há poucas relações tão intensas, necessárias e genuínas quanto a do ser humano com a palavra. Mal haviam nos colocado no mundo e lá estávamos nós, aprendendo uma porção de coisas para substituir a capacidade que ainda nos faltava. Aprendemos choros, grunhidos, gemidos e gritos retumbantes porque ainda não tínhamos o dom da fala - simples subterfúgios paliativos. E foi só adquirir para...
Jan 3rd
December 2010
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Só a bailarina que não tem
O novo filme de Woody Allen, You Will Meet a Tall Dark Stranger (vitimado no Brasil pela tradução sofrível Você Vai Conhecer O Homem dos Seus Sonhos) é um enorme parêntese. Na filmografia de Woody. Em nossa semana. No próprio sentido da vida. Quase podemos ver Woody, com um sorrisinho de canto de boca, por trás da frase que abre e fecha o filme. “A vida é cheia de som e fúria, mas, no fim, nada...
Dec 17th
September 2010
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A arte do espanto - entrevista com Eliane Brum
   Eliane Brum é pequena, reservada, serena. A voz, ritimada pelo forte sotaque gaúcho, só pode ser ouvida quando se faz silêncio, de tão diminuta. Tudo isso seria absolutamente coerente se não fosse Eliane a jornalista tão abruptamente feroz que é. Quem a vê assim, tão doce, não adivinha que ela já enfrentou as mais agudas realidades em busca de uma reportagem que as traduzam com honestidade. Foi...
Sep 17th
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Tudo o que arde
            Há tempos que vem andando cabisbaixo, desaforado, num desamparo de causar dó. O fato é que a repressão chegou a níveis insustentáveis, e nem o mais seguro dos compostos químicos resistiria a tamanha rejeição.             Nos cadernos de saúde pululam alertas quase diários a favor de sua extinção. “Como viver melhor sem ele”, “Saiba o que ele pode te causar”. Profecias de um fim de...
Sep 9th
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August 2010
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Grandes questões gastronômico-existenciais
Sempre achou estranho ouvir a mãe dizer “sardinha”, “batatinha” e “pimentão”. Na escola, conheceu o aumentativo e o diminutivo. Sabia também o que acontecia quando uma palavra não sofria nem uma coisa nem outra: eram os três degraus que a palavra podia subir. Mas, muito estranhamente, “pimentão” era o degrau do meio, não diminuía nem aumentava coisa alguma, afinal, pimentas grandes eram chamadas...
Aug 20th
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July 2010
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O Eco
Tudo o que pensava de mais terrível, só ele escutava. Complacente, repetia as últimas sílabas, cabeça abanando em sinal de consentimento. Ela queria gritar, ferir e matar, e ele a acalmava, embalando as suas palavras de fúria no mais plácido dos colos. O ritmo de sua calma era antídoto para os piores sentimentos. As palavras dela saindo da boca como balas enfurecidas em busca do primeiro alvo, e...
Jul 15th
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May 2010
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Eyjafjalla, um vulcão injuriado
Eu sei que sou bem grandinho e poderia me virar sozinho, mas achei que não fazia mal escancarar as minhas angústias. Sei o que andam falando de mim, e que o mundo imerso submergiu em caos depois que resolvi me manifestar, mas venho por meio desta exprimir o meu assombro. Meu nome é Eyjafjallajokull e sou inocente. Desde que acordei, naquele incipiente e ensolarado abril, os mais discrepantes...
May 18th
April 2010
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Solidão é outra coisa
Eu passava com a cabeça encostada no vidro, como de costume. Os olhos atentos na rua, entupida de gente e movimento. Foi aí que uma cena irrompeu na minha calmaria, incomodando minha vontade de não pensar. Um velhinho entrava no hospital, munido de pequenas malas e uma mochila. O chinelo de couro e o boné azul, esgarçado como sua camiseta, que devia ser resto da últimas eleições para prefeito, o...
Apr 2nd
March 2010
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Virginia
Ela é dessas mulheres que toleram com fineza as raízes do cabelo crescendo por cima dos fios tingidos; que não se abalam com notícias ruins e mantém o mesmo tom jovial de 25 anos atrás - há muito mais de 25 anos atrás, Virginia tinha 25. Seria indelicadeza citar a idade de Virginia, muito embora ela própria não fosse se importar e nem achar indelicado: ao contrário, riria aquele riso pesado de...
Mar 10th
February 2010
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Sempar: o homem que era muitos
De todas as missões a que fora incumbido na vida, esta, sem dúvida, era a mais difícil. Escrever uma auto-biografia, que imensa banalidade narcisista, pensava, tentando se consolar. Uma auto-biografia; ou seja, uma biografia, que por ser auto, deve falar de mim, da pessoa que a escreve: bio-grafia. Uma só, sobre um só homem. Mono. Grafia. Mono-grafia? Viajava num desses pensamentos absurdos,...
Feb 27th
High and dry
A expressão “suar em bicas” nunca fez tanto sentido para alguém quanto sempre fez para ela. Num sábado insosso de preguiças acaloradas, ela se revirava na cama, o lençol umedecido pela água quente que brotava dos seus poros. Sabia bem a fisiologia do calor: de tanto agonizar suores, ela foi estudar a fundo o processo. Entendia o mecanismo de defesa, a resposta biológica, o corpo querendo se...
Feb 11th
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"Uma bola ou duas bola?"
“Uma bola ou duas bola?” é a frase que povoa o imaginário gustativo de qualquer habitante de Piracicaba, cidade do interior de São Paulo, que se preze a gostar de sorvete. Isso porque é assim que a enigmática japonesa Sônia Teramoto, conhecida por Lola, recebe os clientes da sorveteria Paris há mais de 15 anos. Avessa aos clichês da função fática, Lola não diz “Oi”; não diz “Tudo bem?”;...
Feb 6th
January 2010
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Nelson
Tem um desses rostos comuns que, de tão comuns, são confundidos com outros rostos por consideráveis vezes ao dia. Dentes tortos de preguiça e desleixo, barba disforme, olhos avermelhados de cerveja barata. Chama-se Nelson, e seu nome é um de seus luxos. Luxo do qual não podem lhe privar, é o seu nome, afinal, e, principalmente, não é passível de se transformar em apelido. Adora o ir-e-vir da...
Jan 28th
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(Pausa para um pequeno absurdo)
Hoje me sinto ridiculamente humana. Meu dente do siso, chamado “dente do juízo”, irrompeu na minha gengiva. Um pouco tardio, é verdade, mas veio, e não é pela demora que se tornou mais bem quisto, mais necessário. Continua dispensável, fugaz, inútil, avermelhando a gengiva que o rodeia. E, ainda assim, lá está, atrás de todos os dentes, ocupando um espaço morto na minha boca. Um zero à esquerda,...
Jan 28th
Esconde-esconde
Ao contrário das outras gentes miúdas, gostava de homens barbudos, e de escuro. Por isso sorria quando ouvia histórias de monstros presos em armários que se libertavam no escuro,  e queria tocar em qualquer rosto que fosse coberto com pêlos. Tinha medo era das coisas improváveis, como o anoitecer, e como tudo silenciava quando o dia ia embora. O pai ia dormir tarde, ao contrário da mãe, o que...
Jan 21st
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A insustentável densidade do samba
Parecia querer se vingar de todos os estereótipos e, só pelo prazer de fazer o que é contrário, sambava um samba triste Olhos, respiração e ouvidos: tudo convergia para um mesmo ponto de fuga, que era, na verdade, meia dúzia de rapazes organizados em roda, munidos de pandeiro, cavaquinho e qualquer objeto que se prestasse ao batuque. A freguesia do bar se empoleirava toda nos balcões para ver...
Jan 18th
Quem é a terceira pessoa de mim?
Renata Penzani, 22, é estudante da Universidade Estadual Paulista por gostar de Jornalismo, ainda que nem sempre. Escreve sempre que sente uma coceirinha na alma, o que representa, basicamente, todo o tempo. Propensa a mudanças desconcertantes e ingenuidade excessiva, vive alimentando a boa e velha joie de vivre. Se pudesse (ou quisesse) se resumir numa frase, seria: ” no fundo tomos somos...
Jan 12th