Tudo o que arde


            Há tempos que vem andando cabisbaixo, desaforado, num desamparo de causar dó. O fato é que a repressão chegou a níveis insustentáveis, e nem o mais seguro dos compostos químicos resistiria a tamanha rejeição.

            Nos cadernos de saúde pululam alertas quase diários a favor de sua extinção. “Como viver melhor sem ele”, “Saiba o que ele pode te causar”. Profecias de um fim de mundo pararelo ao de Nostradamus, antevisões de uma tragédia anunciada. Balela. O sal, desgostoso da vida, vai empalidecendo de tristeza.

            É difícil saber a origem do desprezo do Homo Sapiens pelo famigerado pozinho. Diagnosticar tamanho egoísmo é difícil principalmente porque o pobre sal quase não tem maus antecedentes. Salvo algumas obstruções arteriais e poucas frustrações em logística de circulação, seu currículo é o retrato do sucesso: metabolismos garantidos, osmoses bem-sucedidas, potes de amendoim japonês e bolinhos de bacalhau.

            Mas nem sempre foi só desgraça, e o pozinho já viveu dias mais felizes. Houve um tempo em que sal era artigo de luxo, um tempo em que nossos ancestrais tinham de se descabelar contra a escassez deste sagrado composto branco. Não havia sal para conservar a comida, e havia muita comida, e havia fome. Foi aí que a evolução das espécies arregaçou suas manguinhas para resolver a escassez do sal no meio ambiente. Erguido apenas pelas lembranças desses tempos de alegria, o sal relembra com carinho seu passado de glória. O sal era pouco, e era preciso muito para que as células continuassem ativas, por isso o corpo, inclinado ao desespero, criou mecanismos de defesa para que o pouco sal que chegasse fosse retido. E quem pode julgá-lo? A afeição é totalmente compreensível. O sal é o sabor da vida, esperança de algum gosto para os que não têm nenhum. O sal é uma vítima do paladar.

            Foi esse apego ancestral que fez surgir o que, para os médicos e nutricionistas, é o apocalipse em forma de oração subordinada: a retenção de líquidos. O que vem depois é uma sequência de silogismos que apavora o pobre sal. A retenção aumenta o volume de líquidos que circulam dentro da gente, o que aumenta a pressão, o que prejudica a flexibilidade das pobres artérias, o que sobrecarrega o coração e os rins. Logo, o sal é o novo tabaco. O novo vírus Ebola. Um outro nome para o fim do mundo. Na vida do azarado sal, tudo acontece. Foi criada até mesmo uma lei para frear seus perigos, a lei antissodio, devidamente adequada à nova ortografia. Numa malograda inversão da humanidade, o sal passou de da escassez extrema a abundâncias abismais, e, neste século XXI, ele é como capim ou uma música do Justin Bieber – e não é preciso dizer mais nada. O mundo se estica e expande e quem sofre as repressões é o sal.

            E a violência não está só aí. São as pequenas ações cotidianas que maltratam os seus sentimentos. Vitimado pelo açúcar, esse placebo das dores humanas, o sal é relegado ao esquecimento. No dia dos namorados, só se ganha bombons e outras bobagens revestidas de glicose. Na Páscoa, os ovos passam a ser de chocolate. Nos aniversários, todos se acomodam ao redor de uma grande mesa para louvar pequenos e grandes e muitos pedaços de açúcar. Quando alguém é gentil, é doce. É num copo de água com açúcar que as pessoas vão aliviar suas angústias. Para o sal, nada. Até mesmo do bacalhau, reduto de sua abundância e liberdade, tentam tirá-lo com induções de osmose biologicamente infalíveis. Dos confeitos que ornamentam as árvores de Natal às melosas adjetivações dos casais apaixonados, nada é salgado. O fato é que o sal parece ter sido reservado a todos os sofrimentos. O mundo é feito de açúcar. dor

            Vale destacar algumas tentativas de dar vazão às suas qualidades. O amendoim é um bom exemplo disso – ninguém toma cerveja comendo brigadeiro. Não é em calda de pêssego, ganache ou suspiro de baunilha que alguém pensa quando vem em mente um happy hour com os amigos. Mas nada disso chega aos pés da humilhação sofrida pelo sal nos assuntos do coração, afinal, só açúcar é sinônimo de amor. Chegaram até a tentar desconstruir o estereótipo arriscando um popularismo fracassado: quem não conhece a história de que muito sal na comida é sinônimo de gente apaixonada? Em vão. A anedota virou logo sinônimo de piada ruim proferida por alguém com mais de 75 anos e pouquíssimo senso de humor, equivalente ao tradicional “é pa vê ou pa comê”, do lado do adversário. Há também o bicarbonato de sódio, o soro caseiro, os sais de banho. Há a bolacha de água e sal, esse fragmento totipotente das possibilidades gastronômicas. O sal grosso. O limão e a tequila. O Sazon. Todos remadores contra uma mesma maré de rejeição.

            Quando tudo está bem e os sorrisos reinam, dizem que a vida é doce, que os problemas são simples e domáveis mamões com açúcar e que é “de choc choc choc chocolate que o amor é feito”, para citar um ícone da cultura pop. Mas se o doce é alegria, o salgado é honestidade. O açúcar é ferramenta de maquiar dores, curar carências, enganar ciclos hormonais, conquistar paladares. “Com açúcar, com afeto, fiz seu doce preferido”, cantarola Chico Buarque. Mas a verdade é feita de sal. Que o digam nossos joelhos, tão maltratados pelo spray de Merthiolate disparado bem no meio da nossa dor. É em sal que ardem nossos pequenos sofrimentos. É em bicarbonato de sódio que borbulham as lembranças do dia anterior. O sal forma caráter. É de sal o suor das horas de trabalho, dos exercícios que provocam tantas descargas de serotonina, da lágrima que nos escapa num súbito de melancolia ou felicidade, das conquistas, das vitórias. Só o sal é humano. E nós, embevecidos por uma onda doce de segurança forjada, continuamos achando que somos feitos só de açúcar. Nesse sopro confortável com que o açúcar nos hipnotiza, continua sem resposta a pergunta de Pablo Neruda: “se todos os rios são doces, de onde o mar tira o sal?¹”.

 

 

¹ : Pablo Neruda, em O Livro das Perguntas


* Ler também:

O sal, de Luciana Elaiuly

Saiu para comprar sal. Nem sempre a doce vida é a melhor vida. Doce enjoa. O Sal dá sede. Sal deixa a gente vivo. Ele saiu para comprar sal. Deixou a casa acesa. A luz em cima da mesa. A busca é sempre a mesma: levar o sal pra casa, tempero de uma risada, graça até pro copo d´água, mas a sede é sempre vesga.
Ele cruzou esquinas, cruzou os dedos, mal sabia. O sal era a ausência que ele deixava quando saía, era o frio de estar sozinho, o sal era só até a esquina, era ela sentir a falta um pouquinho. E ela sentiu. Por isso temperou os planos pro futuro com têmporas tensas e empolgadas. Visões um tanto salgadas, mão molhada, ela sob a luz daquela mesa. Esfomeada. Esperou. Mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, mais um tanto de espera: ele não voltou. Pesou demais a mão no tempo e o tempero dessalgou. Ela escreveu na geladeira “o sal acabou”. E saiu pra comprar um doce, mas a busca é sempre por amor.



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escrito por Renata Penzani - September 09, 2010
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