A arte do espanto - entrevista com Eliane Brum


  

Eliane Brum é pequena, reservada, serena. A voz, ritimada pelo forte sotaque gaúcho, só pode ser ouvida quando se faz silêncio, de tão diminuta. Tudo isso seria absolutamente coerente se não fosse Eliane a jornalista tão abruptamente feroz que é. Quem a vê assim, tão doce, não adivinha que ela já enfrentou as mais agudas realidades em busca de uma reportagem que as traduzam com honestidade. Foi esse deslumbramento que Eliane causou em quantos a encontraram em Vitória, na etapa regional do Intercom de 2010.  Isso porque Eliane é personificação do que dizia Fernando Pessoa: “eu sou tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura”.

Expoente do chamado “Jornalismo Literário” (alcunha que não a agrada muito), Eliane alimenta, por meio do seu trabalho, o ofício maior de ser jornalista e de ser gente: o espanto. Seu maior trunfo na profissão não aprendeu na faculdade e nem nos mais de 10 anos de redação, já nasceu com ele: um par de olhos arregalados e atentos.

O Olho da Rua (Editora Globo, 2008) é o seu livro que mais a denuncia. E a denúncia exibe a Eliane que viaja, vivencia, experimenta. Eliane já ficou 10 dias embrenhada no mato para investigar os benefícios de um retiro vipássana (espécie de ramificação do budismo), cuja premissa maior era o silêncio absoluto; internou-se por um mês em um asilo de São Paulo para entender como funciona a vida quando o mundo se esquece de você; em 2007, mudou-se para um quartinho numa esquina da Brasilândia, bairro da periferia de São Paulo, para buscar alguma delicadeza no meio da violência das ruas; mergulhou nos confins da Amazônia para escrever sobre as parteiras da floresta e, nos anos 90, refez todo o caminho da marcha de Luiz Carlos Prestes (25 mil quilômetros) para reescrever uma História que já estava documentada e imortalizada – a investida rendeu o livro Coluna Prestes, o avesso da lenda (Editora Artes e Ofícios, 1994).

Eliane é gaúcha de Ijuí, Rio Grande do Sul. Formada em Jornalismo pela PUC do Rio Grande do Sul, Eliane nunca quis ser jornalista. Cursava duas faculdades ao mesmo tempo – História na UFRGS e Jornalismo na PUC –, e só da primeira tinha alguma certeza. Tudo mudou quando um professor de Jornalismo, Marques Leonam, apresentou a ela uma face da profissão que ela não conhecia: o lado gente. Convencida até os ossos da idéia de que “nenhuma matéria é mais importante que uma pessoa”, Eliane entrou na profissão num misto de receio e descrença. Para uma inquieta invicta, parecia a profissão perfeita.

Dona de mais de 40 prêmios jornalísticos – dentre eles Jabuti, Esso, Vladimir Herzog e Sociedade Interamericana de Imprensa – Eliane trabalhou mais de 10 anos na histeria de uma redação, no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e tem hoje uma vida aparentemente mais contida – aparentemente: mantém uma coluna semanal na revista Época e escreve todas as terças-feiras no site de crônicas Vida Breve, onde também trabalham nomes como Rogério Pereira, Luiz Pellanda e Fabrício Carpinejar. Mas Eliane não fica parada, acha que todos nós somos respostas inacabadas. É também documentarista, incipiente escritora de ficção e mãe – em todas essas investidas, não sabe se vai ter sucesso, mas não tem medo das interrogações.

Nesta entrevista, Eliane emprestou um pouco de suas angústias e inquietações sobre o que, segundo ela, só pode ser a “melhor profissão do mundo”.

 

 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

 

Renata: Durante a faculdade de Jornalismo, tinha certeza de que não se tornaria jornalista. Quem te apresentou o Jornalismo da maneira que você o conhece foi um professor que teve na faculdade, Marques Leonam. O que ele te disse que transformou o seu olhar sobre a profissão?

 

Eliane Brum: Eu não me via como jornalista, me achava muito tímida, e também não gostava muito de jornal, achava muito chato. Sempre gostei de Literatura. E eu fazia História e Jornalismo – História na Federal e Jornalismo na PUC – e aí eu conheci esse professor, que era maravilhoso. Ele era aquele professor que abria todos os caminhos do mundo, tu podia fazer qualquer coisa, e de várias maneiras – tinha só que descobrir qual era a sua maneira e buscá-la. Ele me fez ver o fascinante da profissão. Para ele, ser repórter era a melhor coisa do mundo, e ele falava aquilo com tanta paixão que eu comecei a enxergar pelos olhos dele. Eu tive uma faculdade muito ruim, então era a primeira vez que eu vi o mundo inteiro se abrindo. Quando eu fiz a minha matéria sobre as filas que a gente enfrenta, desde que nasce até morrer, ele não achou uma idéia estapafúrdia; ele achou bacana e queria ver como eu ia me virar pra fazer isso. E aí eu fiz essa reportagem, uma amiga minha inscreveu num concurso universitário e me chamaram pra comentar a matéria com uma comissão de jurados. A comissão tinha jornalistas e tinha publicitários; os jornalistas disseram que o que eu fazia não era jornalismo, e os publicitários disseram que era, mas como tinha mais publicitários que jornalistas, eu ganhei. Nesse momento, começou algo que eu fui absorvendo muito na minha vida, a idéia de que o que eu fazia não era jornalismo. Diziam que era Literatura, outra coisa, porque eu não usava a pirâmide invertida, que era tudo o que valia naquela época. Se eu tivesse acreditado, eu estava ferrada, porque o jeito que eu escolhi pra fazer as coisas me trouxe pra trabalhar aqui em São Paulo e foi por ele que eu consegui fazer tudo o que eu fiz. É difícil acreditar na gente quando ninguém mais acredita. Tu tem que encontrar pessoas que te amparem nisso. Quando eu entrei no Zero Hora (o prêmio do concurso era um estágio no jornal), me agarrei num repórter chamado Carlos Wagner, que fazia muita reportagem, e se posicionava. E eu o aluguei. Tu vai se encontrando dentro das redações.

 

 

 

Na sua palestra durante o Expocom, em Vitória, você falou muito sobre um Jornalismo que deve escutar e sentir as histórias. O que você acha do Jornalismo que está sendo feito hoje? O que te incomodava na faculdade ainda existe no Jornalismo de hoje?

 

Eu acho que hoje se escuta muito pouco. Não sei se é uma coisa de hoje, isso eu não sei dizer. As pessoas falam com muita nostalgia do Jornalismo de 10 anos atrás, mas acho que as pessoas reclamam muito. Tem maus jornalistas e bons jornalistas em todas as épocas, e eu não sou uma nostálgica. Quando eu comecei, há 21, 22 anos atrás, tinha vários problemas! Mas o que eu posso dizer é que hoje se escuta menos porque se usa mal a tecnologia, que é uma coisa maravilhosa. As pessoas acabam preferindo fazer as coisas por telefone ou por e-mail. Mas a escuta em Jornalismo vai muito além da fala das pessoas, a gente diz coisas por várias maneiras. Diz pela maneira que a gente fala, diz pelo nosso olhar, nossos gestos, nossos silêncios, ou mesmo se a gente gagueja em alguns momentos. Enfim, são vários sinais! A cena que envolve uma entrevista vai muito além das palavras pronunciadas – você não sabe como eu estou agora, por exemplo, dando entrevista de pijamas. É claro que se a entrevista fosse com um chinês, seria difícil tu ir pra China, mas o que acontece é que as pessoas fazem as coisas muito por comodidade, pra não sair da redação. Eu nunca vi tanto jornalista que não gosta de sair da redação como eu vejo hoje – tem uns que não saem nunca. Eu, por exemplo, gasto horas no trânsito de São Paulo pra fazer uma entrevista – fico muito mais tempo no trânsito do que fazendo a entrevista. Muitos jornalistas se deixaram reduzir a aplicadores de aspas em série, e isso não conta nada da realidade, ou conta muito pouco. E mesmo quando as pessoas vão até onde as coisas estão acontecendo, a gente vive num mundo com muito barulho. As pessoas tem uma necessidade incrível de falar o tempo todo e uma dificuldade enorme de escutar, e no Jornalismo eu vejo muito isso: o cara que vai entrevistar alguém e nem o escuta. Ou não escuta porque sai com uma tese pronta da redação, e aí ele precisa que aquela pessoa confirme essa tese (e isso não é Jornalismo); ou então, fica interrompendo a pessoa porque acha que ela está demorando muito pra dizer o que ele acha que ela tem que dizer. Isso não é escutar, é preciso escutar de verdade o que as pessoas contam, como elas contam o que contam, que palavras elas usam pra contar a história delas, senão não é possível fazer reportagem.

 

 

Você acha que é viável esse tipo de reportagem hoje em dia?

 

Não tenho dúvida de que é viável. Acho que é possível fazer reportagem hoje como sempre foi possível. Quando tu vai pra dentro de uma redação, tem que saber que vai ter dificuldade, vai ter problemas, e que vai ter que brigar em alguns momentos. Brigar que eu falo é discutir, buscar o chão, botar os limites e ir conseguindo um espaço. Nenhum editor é louco de tu chegar com uma ótima pauta e ele falar que não. O que eu vejo muito, Renata, é preguiça. As pessoas reclamam muito que tem pouco tempo, que o editor não deixa, mas é muito fácil jogar pro outro. A gente tem uma responsabilidade quando se propõe a contar uma história, e tem muita gente que tem preguiça mesmo, que fica no MSN conversando com os amigos e enquanto isso faz uma entrevista. Isso eu vejo o tempo todo – agora não mais porque eu não estou na redação – então tem de tudo. Na Época, eu já vi ótimos repórteres, começando agora, que vão fazer coisas maravilhosas, e que se condicionam, que são conscientes da sua responsabilidade, e também vi gente que não estava afim mesmo, que tem medo da rua, medo das pessoas.

 

Atualmente, a notícia factual, bruta, está muito fácil. É possível encontrá-la nos portais da internet, no Twitter. O Jornalismo impresso ainda tenta competir com esse aspecto factual da internet. E essa é uma competição burra, porque já que ele não consegue competir, deveria fazer diferente, e o seria fazer isso que você está dizendo – escutar, ir para a rua, contas as histórias das pessoas – mas você vê isso acontecendo?

 

Acho que as pessoas têm medo de mudança, mas elas estão se dando conta disso. Acho que a internet é outra coisa, ela é de outra ordem. O Jornalismo vai precisar cada vez mais da reportagem. Antes, o jornal te dava a notícia, tu ficava sabendo das coisas com o jornal na tua porta de manhã, e agora não. Por mais desligado que tu seja do mundo, vai ficar sabendo de várias maneiras. Então o que vale é o diferencial, e eu acho que a reportagem agora é mais importante do que nunca, eu sou otimista.

 

 

Você trabalhou muito tempo em redação diária e hoje mantém uma coluna na revista Época e no site Vida Breve, que demandam produções semanais. Além do tempo para criação, quais são as principais diferenças de escrever nesses veículos?

 

Eu fiquei 11 anos no Zero Hora. Eu fazia jornalismo diário, eu fazia matéria especial (voltar nessa parte pra entender melhor). Eu não tive nenhuma mudança quando fui trabalhar na revista, até porque na revista não é reportagem, é coluna, é outra coisa (aí tem outras implicações, ainda é uma coisa que eu estou experimentando), mas quando eu estava no jornal, eu sempre fiz do mesmo jeito. Acho que não importa o meio que tu está, mas a forma que tu olha. Assim como, por exemplo, se tu tiver um mês pra fazer uma matéria e tiver aquele olhar que vai repetir porque é mais fácil, não adianta ter um mês. O que importa é a forma como tu olha para a reportagem, como tu vai pra rua e olha para as coisas, tentando enxergar um pouco além do óbvio, tentando ver as coisas de vários ângulos, sem medo de percorrer essa zona cinzenta cheia de nuances que é a realidade.

 

 

Na mesa do Expocom, você falou sobre a dificuldade de escrever diferente do que escreveu a vida toda. Assim como o Luis Rufatto, que recorre ao dicionário, você tem algum artifício a que recorre para driblar a redundância de si mesma? Como você faz pra escrever diferente do que sempre escreveu?

 

Acho que não é uma questão de palavra diferente. É um policiamento que tu tem que fazer contigo mesmo. Eu sou uma crise ambulante, estou sempre me questionando. É um policiamento constante, para não se acomodar, e isso vale pra vida. Eu tento perceber se eu não estou me repetindo, porque quando você vai ficando mais velho, já tem o seu próprio manual, que você sabe que funciona, e aí a reportagem (ou o que for) sai fácil. Eu sempre tento fazer o exercício de – primeiro, lembrar disso – complicar as coisas. Eu tenho uma pauta, e tento complicar essa pauta, porque se ela veio assim é porque é o mais óbvio, é o jeito mais fácil de fazer, seja por outros ou seja por mim, e escrever é a mesma coisa. Então, eu estou escrevendo de um jeito, mas será que esse é o melhor jeito de contar? Não tem um outro jeito que vai me exigir mais tempo e vai ser um jeito em que eu me reinvente? A gente está o tempo todo se reinventando na vida, não tem nada pronto, a gente não é algo acabado, estamos sempre com essa possibilidade de ser diferente. E no jornalismo é isso, na reportagem também: tu tem que estar sempre se reinventando. É claro que tem um estilo que é teu, um jeito de contar que é teu, mas dentro desse jeito de contar, tu precisa se reinventar o tempo todo. Pra mim, a coluna também é isso, primeiro pela coisa de trabalhar na internet, porque eu acho a internet maravilhosa – não pra fazer entrevista e outras coisas, mas acho que a internet mudou muita coisa pra nós jornalistas. Antes da internet, eu fazia o meu trabalho para dar voz àqueles que não tinham voz, mas hoje eu já não posso dizer isso, porque ela deu voz a muita gente; é um instrumento das periferias, não só as das grandes cidades, mas as do Brasil todo até a Amazônia; as pessoas todas têm blog e isso democratizou muita informação, porque as próprias pessoas contam suas histórias de várias maneiras. Se a imprensa tradicional não cobre, elas mesmas cobrem aquilo que fazem. Isso mudou muito a reação de forças e ampliou muitas vozes. Hoje, tem muito mais gente falando, é muito mais plural. Acho isso fascinante, e queria fazer alguma coisa na internet. Daí esse exercício de fazer coluna, que é diferente da reportagem. A internet é um exercício constante de humildade, de tolerância, porque as pessoas te respondem na hora, comentam, te xingam; tu tem esse retorno imediato e isso serve para várias coisas, principalmente pra compreender um pouco mais as pessoas. Uma coisa que me interessa muito é o que as pessoas falam, como elas se manifestam quando elas podem dizer qualquer coisa. É uma coisa chocante. Outra coisa que eu acho muito bacana na internet é que as pessoas continuam escrevendo o seu texto. Quando as pessoas estão realmente pensando juntas, às vezes elas escrevem coisas que o meu texto não abarcou, e que é uma continuação do texto, com outras possibilidades, e isso é muito legal. São comentários autoexplicativos, tu conhece as pessoas e como elas se comportam por aí.

 

 

Você diz que sofria muito com os cortes dos editores nos seus textos. Na sua coluna na Época isso ainda acontece?

 

Não, porque a minha coluna não passa por ninguém. Eu sofria muito com os cortes de matéria, brigava muito por isso quando eu comecei, nos primeiros anos de reportagem. Depois, aos poucos, eu fui conquistando o meu espaço e quando eu saí do Zero Hora, já não tinha esse problema. Mas na Época, na maior parte do tempo, eu respondi direto pro diretor de redação, não tinha editor entre mim e o diretor de redação. Então, se tivesse que discutir alguma coisa, discutia com ele; isso elimina muito passos. E eu já vim para São Paulo por conta do trabalho que eu fazia, e da forma como eu fazia. Então, não fazia muito sentido alterar o que eu fazia se estavam me contratando exatamente por aquilo, embora eu tenha tido alguns embates, claro, sempre tem. Claro que houve discussões, mas agora é muito menor a interferência, eu posso ser mais autoral. E isso é uma coisa que tu vem conquistando com o tempo, pelo trabalho que tu faz, tu te mostra, entrega aquilo que promete – as coisas boas da rua –, e faz o seu espaço. É uma construção.

 

 

Principalmente em estudantes que estão começando na profissão, bate uma certa sensação de eco, porque quando se tenta fazer algo diferente, o que não falta é gente pra te dizer que aquilo é errado. Hoje em dia, você acha que está mais fácil ou mais difícil construir essa voz própria?

 

Acho que nem mais fácil e nem mais difícil. Sempre foi difícil. Porque se tu começa esse problema na faculdade, é na faculdade que tu tem que começar a brigar. Para um editor medíocre, é mais fácil que o cara faça o que ele mandou, que faça aquele feijão com arroz que resolva o problema dele. Isso só para editores medíocres. Se tu te abate com isso, vai fazer isso a vida toda, e vai ser facilmente descartado, porque pra fazer do mesmo jeito que todo mundo faz, todo mundo faz. Quem toma esse caminho são pessoas que, por uma série de razões, não querem ter voz própria. Ter voz própria exige que tu tenha uma grande disposição, tudo fica mais difícil, mas os caminhos mais difíceis são os melhores. Então, depende muito de quem é que tu quer ser. Eu vejo isso claramente nas pessoas que entram na Época. Dá pra ver direitinho quem é que vai fazer coisas legais e quem não. Se tu abaixar a cabeça e só fazer o que te mandam, mesmo achando que está errado, está ferrado – e vai ser demitido porque vão contratar um mais barato que tu, que faz a mesma coisa. A grande coisa da vida é a gente buscar nossa própria voz, e essa é uma busca que não acaba, é a busca de todo mundo. Assim como a vida não é fácil, não é fácil numa redação. Nenhum editor vai te botar no colo e perguntar quanto espaço tu precisa. Eu sofri muito, tive vários embates sérios, fiquei sem dormir muitas vezes e já pensei em largar tudo, mas não largo. Não largo porque tu tem que ter dentro de ti uma coisa que é o teu projeto de vida; manter dentro de ti um horizonte que é teu e esse horizonte ninguém te tira. É pra ele que tu olha e não te deixa abater pelas pequenezas ao redor de ti, para se concentrar naquilo que vale a pena, naquilo que é grande. Isso acontece quando tu tem um ideal e sabe porque está fazendo Jornalismo – não uma resposta pronta porque essa resposta também está sempre em construção, mas um começo. Saber que o Jornalismo não é ganhar um bom salário e ser famoso, é algo muito maior que isso. É a sua inscrição no mundo! O nosso trabalho é a maneira com que a gente se coloca no mundo e muda o mundo. Não acho que seja um mau momento para ser repórter. É um bom momento. Os jornais estão buscando pessoas que tenham singularidade, voz própria. E com a internet, há muitas possibilidades de contar a sua história, muitas que, inclusive, nem passam pela imprensa tradicional.

 

 

Além da coluna da Época e das crônicas no Vida Breve, o que está fazendo atualmente?

 

Estou terminando um documentário. Acabei de escrever um pequeno livro, que tem a ver com reportagem, mas é mais autobiográfico, e além disso vou escrever um livro de ficção, que é uma coisa que eu nunca fiz. A gente tem que estar sempre se reinventando, então eu vivo com frio na barriga por sempre tentar fazer alguma coisa que eu ainda não fiz, tentando contar histórias de outras maneiras. Mas a reportagem é essencial: eu sou repórter.

 

Não sei muito sobre mim mesma. Quando acho que sei um pouco, eu mesma me desmascaro e escapo de mim. Mas se tenho alguma certeza é a de que sou repórter. Ser repórter é algo profundo, definitivo do que sou. Todo o meu olhar sobre o mundo é mediado por um amor desmedido pelo infinito absurdo da realidade. E pela capacidade de cada pessoa reinventar a si mesma, dar sentido ao que não tem nenhum. São esses os únicos milagres em que acredito, os de gente.”

 

Trecho do livro A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial)

 

 

 

 

Esta entrevista foi feita em junho, aqui vão as atualizações necessárias:

 

# Eliane Brum deixou a redação da revista Época e passou a escrever somente na revista online, onde sua coluna é publicada todas as segundas-feiras.

 

#O documentário que ela cita no final da entrevista, Gretchen Filme Estrada, com direção de Samora Paschoal, vai ser lançado dia 21, próxima terça-feira, no Itaú Cultural, em São Paulo.

 

Confira aqui o trailer não-oficial: “Gretchen Filme Estrada”



Comments
escrito por Renata Penzani - September 17, 2010
blog comments powered by Disqus