Só a bailarina que não tem


O novo filme de Woody Allen, You Will Meet a Tall Dark Stranger (vitimado no Brasil pela tradução sofrível Você Vai Conhecer O Homem dos Seus Sonhos) é um enorme parêntese. Na filmografia de Woody. Em nossa semana. No próprio sentido da vida.

Quase podemos ver Woody, com um sorrisinho de canto de boca, por trás da frase que abre e fecha o filme. “A vida é cheia de som e fúria, mas, no fim, nada significa”, uma alusão a Shakespeare em Macbeth, é apenas ironia mal disfarçada de referência intelectual. Com ela, Woody Allen segreda em nossos ouvidos: “Olha, a história que vou contar agora, como a vida, faz pouco ou nenhum sentido e provavelmente não vai te levar a lugar nenhum, mas estou entediado e quero contá-la mesmo assim”. E aí os  98 minutos que seguem são espasmos de identificação respaldados por diálogos impagáveis e alguns dramas sinceros que não levam a nenhuma descoberta ou novidade.

You Will Meet a Tall Dark Stranger não muda nada nem ninguém – e nem nasce com essa pretensão. É só um dedo apontado para a nossa impotência frente à vida, que, no fim, resume-se à mesma óbvia constatação descrita por Graciliano Ramos em “Vidas Secas”: no fundo, todos somos Baleias e esperamos preás”.

O filme é uma mistura de histórias justapostas que juntas formam uma massa sólida, mas que, separadamente, são só cacos de pequenos fracassos. Alfie (o grande Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones) são um casal cujo relacionamento se enfraquece por um descompasso complexo: ela aceita a passagem do tempo e ele… bem, ele não. Sally (Naomi Watts), filha do casal, é casada com Roy (Josh Brolin), um escritor one hit maker, cujo sucesso do primeiro livro o enfiou num hiato criativo que o empurra de frustração em frustração.

O desenrolar dessas vidas todas é quase um poema drummoniano. Alfie compra a ilusão da juventude se casando com uma garota de programa, Charmaine (Lucy Punch, em atuação impecável e divertidíssima – descontados os exageros, é a única personagem honestamente coerente do filme), com quem constrói a falsa ideia de felicidade. Helena desaba num poço de ilusões sem fim e se entrega às previsões da vidente (atenção para o nome) Crystal (Pauline Collins). O escritor-de-sucesso-em-potencial Roy passa a flertar com a vizinha do prédio ao lado para ignorar o fato de que nunca será bom o suficiente para sua mulher, Sally – que, aliás, merece destaque. A personagem interpretada com graça por Naomi Watts funciona como uma espécie de aparador de angústias. Ela é o ponto de convergência de todas as personagens, uma espécie de ancoradouro de fracassos. Das loucuras do pai, dos absurdos da mãe, das fraquezas do marido, da insegurança da amiga e dos conflitos do chefe. E dela mesma, que nunca conseguiu ter sua própria galeria e fantasia uma história de amor com o chefe, Greg, vivido por Antonio Banderas.

É no meio desse emaranhado de histórias que Sally personifica a mensagem que o sempre sarcástico Woody Allen quer passar – se é que há mesmo essa vontade por trás daqueles óculos. Todos temos conflitos, defeitos, aspirações. É nosso eterno denominador comum, que nos agremia e nivela todos os dias, não importando credo ou posição social. No melhor estilo “só a bailarina que não tem”, da música do Chico Buarque, é também por termos nossas próprias questões e defeitos que nos identificamos com as personagens do filme, e que continuamos assistindo mesmo quando advertidos de sua total falta de sentido.

Somos todos um pouco Baleia, a cachorrinha de Vidas Secas, que passa a vida sonhando com um farto banquete de preás e morre com a mesma fome que lhe assaltou por toda a vida. A ambição não diminuiu sua fome, nossa incompreensão perante a vida não nos livra da urgência de experenciá-la com a máxima paixão, e o filme de Woody não nos ensina nada de novo, mas, como Baleia, somos movidos também pelo sonho: senão um campo de preás gordos e muitos, pelo menos uma vida um pouquinho menos medíocre.



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escrito por Renata Penzani - December 17, 2010
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