Brincar de palavra


           

Há poucas relações tão intensas, necessárias e genuínas quanto a do ser humano com a palavra. Mal haviam nos colocado no mundo e lá estávamos nós, aprendendo uma porção de coisas para substituir a capacidade que ainda nos faltava. Aprendemos choros, grunhidos, gemidos e gritos retumbantes porque ainda não tínhamos o dom da fala - simples subterfúgios paliativos. E foi só adquirir para logo depois desaprender tudo de novo. “Não tenho palavras”, dizemos, sempre que temos muitas. Aí, passamos a aprender novas coisas para substituir as tais palavras em elipse. Aprendemos o olhar, o toque, o sorrisinho amarelo de canto de boca, o abraço. Só porque queríamos elas – as palavras, malandras, que nos fogem quase sempre. Que o digam os escritores, vítimas constantes de seus hiatos criativos. Mas que o diga também qualquer ser que é vivo e precisa se comunicar.

A palavra é o meio pelo qual expressamos o que nos passa por dentro, e a via pela qual quase sempre escapa o que realmente queríamos ter dito. Mas é só olhar para o mundo para poder afirmar, sob a tônica de um vencido, um absurdo urgente: banalizaram as palavras!

Diz-se qualquer coisa em qualquer contexto com qualquer palavra. Não pretendo, com isso, resvalar no superestimado “todos dizem eu te amo”, mas na constatação de que ninguém mais escolhe suas palavras, ninguém mais apalpa os seus significados ou explora suas milhares de conotações e denotações. Ninguém quer experimentar várias palavras para descobrir qual emociona mais – ou qual fere menos. Vivemos negligenciando seu poder de bala, sua irreversibilidade. Não queremos saber se redundam ou complementam, ofendem ou glorificam, se comunicam ou fazem ruído. Pobre palavrinha, deixou de ser o brinquedo da linguagem. “Não brinco de brinquedo, brinco de palavra”, já disse Manoel de Barros. E o lúdico se perdeu.

Mas eis que um projeto muito simples me fez recuperar a fé na palavra e recobrar minha afeição pela etimologia.  Trata-se de um site, criado pelo Oxford English Dictionary, que funciona sob uma premissa muito simples e bonitinha: adote uma palavra e ela não morrerá. No melhor estilo naive a la Phoebe Buffay, o Save The Words exibe milhares de palavrinhas que saltitam em seu monitor, palavras carentes de alguma utilização, de alguma vida útil fora dos dicionários.

Se colocada em prática, essa ideia colocaria fim em muitos incômodos da vida contemporânea: os discursos redundantes, os cacoetes que nos perseguem, os infindáveis sinônimos que padecem de nosso desprezo coletivo. Ok, exagero. Mas, descontada a dramatização, trata-se de algo perfeitamente possível a ideia de usarmos uma nova palavra a cada dia. Seria a tranqüilidade das palavras que já foram saturadas. Seria o último suspiro dos textos que resumem “as armações do barulho” de nossas sessões da tarde. O sossego derradeiro do preconceito à linguagem. Afinal, todos nós bem sabemos o quanto pode ser desestimulante ter sua palavra preferida inserida em algum contexto de potencial banalização.

Os adjetivos são as maiores vítimas dessa verborragia desenfreada que se faz por aí. Em tempos como esse, não se pode tascar “divertido” em um texto ou conversa sem soar como uma vinheta de desenho animado. Ou ainda sair ileso de qualquer aplicação social que envolva mais de duas pessoas de palavras como “confusão”, “chocante”, “irado”. As pessoas simplesmente ignoram os significados literais em nome de uma espécie de bullying lingüístico. Isso para economizar as palavras que remontam a tempos áureos da etimologia, cujo maior representante ortográfico pode ser “supimpa”. È como ter suas roupas coloridas preferidas afanadas pelo estilo Restart – veja que até mesmo “preferidas” pode soar como algo advindo de uma enquete ginasiana. Você sempre usou, gostaria de continuar usando, mas opta por não fazê-lo porque o contexto te condena. 

O fato é que eu – assim como Eliane Brum segreda neste texto – também sempre quis que me perguntassem qual é a palavra de que gosto mais – nem que fosse para ficar com uma completa cara de tacho e perder o sono por noites afora em busca de uma resposta. Repare, por exemplo, que, aqui, a palavra “tacho” ganha a licença poética que lhe foi privada nesse tempo todo. Padecemos de uma repressão etimológica terrível, em que não podemos usar as palavras que queremos sem ganhar rótulo disso ou daquilo. Descanse em paz, preconceito vocabular. Daí a urgência do savethewords.org: é a redescoberta das palavras esquecidas em nome da democratização do vocabulário banalizado. A Língua Portuguesa clama por um projeto assim em terras tupiniquins – estou aqui à disposição, aliás. Adotemos uma palavra nova por dia e poderemos desfilar os nossos verbetes preferidos sem parecermos cafonas, saudosistas ou metidos a intelectuais. “Quem não vê bem uma palavra não pode ver uma alma” – a frase de Fernando Pessoa nos lembra do óbvio: somos feitos, proporcionalmente, de palavras e silêncios. Somente entupindo nosso vocabulário de palavras fresquinhas e novas é que vamos conseguir que continue tão poética a mal disfarçada expressão “estou sem palavras”. Que assim seja sempre que tivermos muitas.

* Foto da querida amiga-irmã Paula Machado



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escrito por Renata Penzani - January 02, 2011
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