“Por que choram tanto as nuvens e cada vez são mais alegres?”


Linda, como sempre. A um só tempo inopinada e oportuna, chega sempre nos momentos em que estamos prestes a afundar em pensamentos. Que ironia, vejam só! Logo ela, impedindo afogamento. Percebemos sua fraqueza, seu vir-não-vir, sua singela forma de mostrar presença. Num minuto, é timidez, hesitação sem alarde. No outro, é extravagância, exagero estrambótico. Reconheço-a nas duas formas. Seu barulho chega antes da sua presença. Primeiro a escuto, depois a vejo – às vezes nem vejo, só ficando escutando, seus ruídos me bastam para saber que está lá. Se são intensos, percebo uma certa braveza, uma vontade de dizer alguma coisa que não diz nunca, mas que vivo tentando adivinhar. Comungo do seu alarde e logo se agitam uns pensamentos revoltos. Tempestade. Se são barulhos de sossego, aceito a melancolia e também me aquieto. Garoa fina. Mas algumas vezes, quebro o pacto mudo entre uma atitude e outra e vou expiá-la, a exibir o que lhe escorre. Pode ser prevista, intempestiva, mansa, fina, tórrida, ácida. De estrelas, areia, meteoros. De líquido, de pedra ou em forma de bolinho que acompanha café quente. Determina humores, atrasa os dias e alaga tudo quanto é rua e pensamento. Põe o agora pra depois – é mais penoso viver na chuva. Torna tudo chuvoso – até as pessoas. Resmunga e silencia na mesma proporção, e é como se reclamasse que já foi nuvem branca, calmaria, céu azul. A chuva é triste? Encharca todo mundo, mas nunca se enxuga. Incontáveis guarda-chuvas, e ela continua solta, a incitar as ventanias. Deixa-se diluir, mas sempre acaba num verso que redunda: a chuva chove. Chora, chora, e nunca desaprende a ser alegre. Chove, chove e nunca esvazia. A chuva é a gente mesmo, só que escorre.



Comments
escrito por Renata Penzani - January 05, 2011
blog comments powered by Disqus