Esse texto aí embaixo foi escrito para a revista Continuum, do Instituto Itaú Cultural, seção Deadline, voltado a projetos de reportagem de estudantes de jornalismo. Oportunidade linda de conhecer pessoas igualmente lindas, como a dona “neuza-com-zê-guerreiro-de-carvalho” e o pessoal todo do Museu da Pessoa.
A versão reduzida do texto está no site da Continuum: www.itaucultural.org.br/continuum
E a reportagem está publicada na edição de janeiro/fevereiro da revista. Vale muito ler, está ótima.
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Colecionar selos, moedas, cartas, tampinhas de garrafa. A necessidade de preservar coisas significativas é natural do ser humano. Mas nem só de numismática, filatelia e outros quiprocós semânticos é feito o colecionismo. Esses que são apenas nomes complicados para denominar uma mesma vontade, não conseguem suprir uma necessidade mais incisiva: a construção de uma memória social. Foi com essa preocupação que surgiu, em 1991, o Museu da Pessoa, acervo virtual de histórias de vida, que está aí para pontuar que a vida é passageira e que é preciso reter – se não a História inteira, ao menos alguns pedaços importantes das pequenas histórias que a compõe.
Desde a Idade Média, quando surgiram os primeiros museus, o homem constrói sua identidade com base nas lembranças. Os museus, mais do que áreas de preservação, tornaram-se testemunhas da História que já aconteceu e ancoradouro da que ainda iria acontecer. Nesse sentido, o que pode ser mais decisivo para a construção da grande História do que as pequenas histórias? Histórias simples, como a de Ana Maria, que tinha uma galinha chama Miss Brasil, ou a de Mestre Alagoinha, que construiu a duras penas a maior biblioteca rural do Brasil. “Não tem nada mais precioso para entender o mundo do que ouvir as pessoas. É muito simples: toda história de vida é importante: desde o porteiro até o presidente da República”, facilita a historiadora Karen Worcman, fundadora do museu e maior entusiasta de sua metodologia, que o define em palavras simples: “uma metáfora do mundo narrada pelas próprias pessoas”. Mas é sob a complexa responsabilidade de resguardar anônimas narrativas sociais que funciona o museu; hoje, ele preserva um acervo de aproximadamente 12 depoimentos, 72.000 fotos e documentos e 168 projetos nas áreas de educação, comunicação, memória institucional e desenvolvimento social.
Apesar de seus arquivos serem virtuais, o Museu da Pessoa tem sede em São Paulo. A metodologia do projeto inspirou outros países, e hoje ele tem mais três núcleos: Portugal, Canadá e Estados Unidos. O do Brasil foi o primeiro. É de um sobrado modesto da Vila Madalena que saem certezas de que a emaranhada teia da memória social está sendo bordada a pontos pequenos. Ao entrarmos lá, podemos sentir o peso da memória. Nos quadros, fotos, livros e documentos de acervo estão histórias que os jornais nunca noticiaram. Suas paredes, encharcadas de lembranças, poderiam contar sozinhas a história de um Brasil em elipse. O Museu da Pessoa é aberto a todo mundo, e seu estúdio de gravação fica disponível para qualquer pessoa que queira contar a sua história – basta agendar um horário. Sabrina, a mocinha que cuida da limpeza do museu, faz questão de frisar, num sorriso de orelha a orelha: “quem sabe um dia eu também conto a minha?”.
Rubem Braga dizia que “os jornais noticiam tudo, mas esquecem algo fundamental que acontece todos os dias: a vida”. Talvez nem todo mundo dê valor a isso, mas é desse material humano que compõe a narrativa única da qual todos fazemos parte que é feito o Museu da Pessoa. A história da mulher que tinha uma galinha chamada Miss Brasil. O rapaz que construiu sozinho a maior biblioteca rural do Brasil. A brincadeira de amarelinha da moça que nasceu em Recife. Histórias comuns de gente anônima, que não precisam de nenhum celebritismo para integrar a memória social.
O Museu da Pessoa prima pelo escorregadio da vida, pelo o que as lembranças têm de intangibilidade. Afinal, o que leva as pessoas a quererem contar suas histórias? Para Gustavo Ribeiro Sanchez, responsável pelo acervo do museu há 3 anos e meio, um dos motivos é a “efemeridade da existência humana, a agonia de sermos passageiros”. Desejo de se eternizar, urgência de reflexão sobre o passado, nostalgia: são incontáveis os porquês, e, no museu da Pessoa, essas interrogações são reduzidas a uma certeza: todos eles são importantes.
É impossível ignorar, porém, que a História é uma ação que se dá no presente, e, por isso, os documentos, fotos, depoimentos em vídeo e textos transcritos do Museu não são – ainda bem! - capazes de abarcar a memória inteira. Pedaços dela ficam elípticos num olhar cabisbaixo, num estalar de dedos, em toda uma conotação corporal que fala mais do que a oralidade. “Memória não é lembrar tudo, ela é muito mais esquecimento”, filosofa Gustavo.
O que lembro, tenho
“Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo”. Assim se define Irineo Funes, personagem do conto Funes, El Memorioso, de Jorge Luís Borges, que narra a agonia de um homem que se lembra de absolutamente tudo. Se o esquecimento é uma defesa para que não enlouqueçamos com nossas próprias memórias, não é por esse receio que dona Neuza, depoente do museu há mais de dez anos, deixa de relembrar suas histórias.
Neuza Guerreiro de Carvalho – “Neuza-com-zê-guerreiro-de-carvalho. Gosto que escrevam completinho. Meu nome é minha identidade” – tem 80 anos e conta suas histórias ao Museu desde 1997. Ela começou por conta de um presente de família: um diário do avô de seu marido, datado de 1872, que fez surgir nela a vontade de escrever a história da família. “Fui escrevendo, escrevendo, mas nunca me preocupei com o que aquilo iria virar. Pra mim, era só um registro que queria deixar pros meus filhos”.
De 97 pra cá, dona Neuza acumulou mais de 15 pastas – “dessas grossonas, sabe?”, ela faz questão de frisar – só sobre sua vida, sem contar as dos parentes todos, entre avós, irmãos, primos e agregados: registros de uma vida inteira passada a limpo. No Museu da Pessoa, ela tem dezenas de textos transcritos, fotos, documentos e um vídeo unitário sobre sua vida com duração de 4 horas. Além de banco de dados da família, esse material se tornou documento de pesquisa histórica: “Acabei de tornando um repositório de registros. Por eles, dá pra perceber o quanto evoluiu ou involuiu a sociedade”. Ela conta ainda, os olhos brilhando de satisfação, que os netos, quando arrumam namorada nova, vão fuçar nas pastas para impressionar a garota. “Sinto que eles têm orgulho”. O sentimento é perfeitamente justificável, afinal, quantas coisas durarão para além do nosso esquecimento?
Dona Neuza diz que não é saudosista – “As pessoas dizem que antes era melhor. Era nada!” –, e quando questionada sobre o porquê de todo esse resgate, ela responde: “A identidade da gente fica reparada. É uma maneira de eu me sentir enraizada”. E quando sugiro que utilize as plataformas digitais pra armazenar suas histórias para livrar as tais 15 pastas do peso de uma vida inteira, ela é incisiva: “prefiro manusear”.
Pode ser por necessidade, vontade, orgulho e – por que não? – um pouquinho de medo, que o homem criou diferentes maneiras de guardar suas lembranças. Não importa se representadas por tampinhas de garrafa amontoadas numa caixa de sapato ou por uma imensa indumentária de guerra preservada em um museu, o homem é feito de tudo aquilo que tem para lembrar.
Seja como for, o desejo de reter partes significativas de um período histórico ou contexto social, ao menos entre as paredes do Museu da Pessoa, continuará resguardado nas histórias dos Josés, Marias e Raimundos de um Brasil que acontece todos os dias. Não é por acaso que Riobaldo Tartarana, personagem de Guimarães Rosa, atordoado com a urgência de possuir sua própria história, diz, em um trecho de Grande Sertão Veredas: “o que lembro, tenho”. Essa frase deixa escapar a ideia de que lembrança guardada é posse e, mais do que isso, não é a melancolia de um passado encerrado, mas uma memória que continua, uma vida que se recobra na lembrança e que por isso mesmo é viva. Cada história que compõe a História é um mundo que revela outros mundos. Este é o movimento que faz o mundo girar. Como diria dona Neuza, “a história é uma coisa progressiva; enquanto eu não morrer, ela vai continuar a ser escrita”.