Foi na Feira do Livro que eu aprendi


* Deslumbramento
des.lum.bra.men.to
sm (deslumbrar+mento2) 1 Ação ou efeito de deslumbrar. 2 Ofuscação momentânea causada por uma luz muito forte. 3 Perturbação da vista ou cegueira momentânea devida a uma vertigem ou outro incômodo cerebral. 4 Assombro, fascinação, maravilha. Var: deslumbrância, deslumbre.

 

 

 

            Ao observar as crianças que chegavam, atentei às características que as diferenciavam. Algumas meninas tinham fitas de cetim no cabelo, dessas envelhecidas por um cor-de-rosa desmaiado – o que fazia parecer um impropério chamá-las de cor de rosa. Outras tinham os cabelos presos no alto da cabeça, com pomposos elásticos enfeitados por princesas de acrílico e brocal, cintilantes como toda a vida que tinham pela frente. Aquelas crianças eram diferentes até mesmo no rabo de cavalo: algumas tinham-no preso pela altura dos ombros; outras, ostentavam um penteado ereto, com ares de cigana oriental.

            Todas entravam pulando e gritando, crianças que eram, a tangenciar a educação que receberam – ou, ao menos, que deveriam ter recebido. Dividiam-se em dois grupos, inevitáveis e dicotômicas em suas características. Além da divisão óbvia entre pobres e ricas, apartavam-se também em um outro tipo de pobreza: a de empatia.

            As do primeiro grupo, sempre mais dispostas e mais saltitantes, eram, sim, as mais barulhentas e bagunceiras, o que poderia ser facilmente interpretado como falta de educação. As do segundo grupo, porém, mesmo que também gritando e saltitando, corriam com menos pressa e sorriam com menos brilho. Foi quando percebi que o elemento responsável por separá-las em dois grupos não era representado por um cifrão. Não era uma visível desigualdade social que as distanciava frente à minha observação atenta: era a esperança.

            Tainá, de 9 anos, pertencia ao primeiro grupo, e, logo que chegou perto dos livros, foi barrada pela professora que, indignada com a correria da pequena, não soube conter sua desavisada autoridade. Ao perceber sua criancice reprimida, Tainá aquietou-se num canto, contida feito adulto, a procurar refúgio na calma de um livro. O volume era cor-de-rosa – este, sim, vivo como a flor que lhe deu o nome – ilustrado e de capa dura. Foi o suficiente para crescer o brilho nos olhinhos da menina. Ela manuseava O Segredo dos Bichinhos da Floresta com cuidado e disciplina impecáveis, tamanha era a bronca que dava nos amigos que vinham cheios de mãos para cima de seu refúgio. Aquele, fingia, era só dela. Por isso é que se demorava com o livro nas mãos o mais que podia, alisando sua capa e observando todas as figuras: por saber que não seria seu, é que Tainá fingia que era. Mas a menina, ainda que apaixonada por seu porto, desancorava-se facilmente, quando lembrava que não era, ainda, dona dele. Olhava para a etiqueta de preço grudada na contracapa, a culpada por sujar sua fantasia com as cores da realidade.

            As crianças do segundo grupo pareciam desconhecer a facilidade de encantamento de Tainá, e pouco demonstravam dominar suas habilidades teatrais. Não faziam de livro nenhum seu refúgio, e tampouco aquietavam-se nos cantos – ao contrário, pareciam dominar o ambiente todo, e não somente suas arestas. A gritaria e correria eram implacáveis, e não se deixavam frear por uma simples estante colorida. Corriam os olhinhos pelos livros com muita rapidez, olhando tudo ao mesmo tempo, sem atentar para nada que não fosse excessivamente cintilante – e, proporcionalmente, caro. Sua criancice era disfarçada por uma espécie de maturidade imposta, forjada numa pressa e numa falta de concentração que não combinavam com a idade e as roupas coloridas. Pareciam conhecer todos aqueles volumes, e apenas um ou outro conseguiam segurar seu interesse escorregadio. Corriam descontrolados pelas estantes sem perceber quando derrubavam uma ou outra coisa e desorganizavam as prateleiras. Seu respaldo eram as notas de 20 e de 50, que chacoalhavam satisfeitos sempre que condicionavam seus objetos de desejo a um preço. Sem discernimento para diferenciar uma nota de cinqüenta de outra de cinco, estavam convencidos de que qualquer item ali poderia ser seu. Por isso é que se entediavam rapidamente, deslizando seus tênis-patins para outra freguesia.

            Clarissa, 8 anos, parece ter economizado fôlego a vida inteira para dizer o que disse tão rápido. Com as palavras escapando da frase, disse: “Fica olhando esse esse que eu já volto”. O que ela quis dizer, descobri mais tarde, é que ela que iria almoçar com os colegas e que logo voltaria para buscar o livro que gostou, ao mesmo tempo em que implorava para que eu o guardasse. Depois de 15 minutos, voltou, gabando-se do salgadinho de milho que comera à sombra da calçada, e caçoando da fome que eu tinha e que ela parecia ter adivinhado – “Eu almocei na árvore”, disse.

            O fato é que todas aquelas crianças – as do primeiro e as do segundo grupo –  agiam como se soubessem que poderiam ser como as princesas que protagonizam os livros, ou como os heróis a superar seus calcanhares de Aquiles. Por isso, nem se davam ao trabalho de sonhar em ser. Não desperdiçavam sonhos com obviedades, como se quisessem guardá-los para feitos um pouco mais impossíveis. Um sonho, afinal, precisa fazer jus à grandeza de sua realização.



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escrito por Renata Penzani - May 28, 2011
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