Eyjafjalla, um vulcão injuriado


Eu sei que sou bem grandinho e poderia me virar sozinho, mas achei que não fazia mal escancarar as minhas angústias. Sei o que andam falando de mim, e que o mundo imerso submergiu em caos depois que resolvi me manifestar, mas venho por meio desta exprimir o meu assombro. Meu nome é Eyjafjallajokull e sou inocente.

Desde que acordei, naquele incipiente e ensolarado abril, os mais discrepantes eventos mundiais têm sido associados a mim. Sei que as cinzas originadas de minha lava atingiram a zona de controle do tráfego aéreo, e que por conta disto o caos, que não economiza esforços para descompassar o plano terreno, atingiu também o plano aéreo. Imediatamente, os vôos de quase toda a Europa foram cancelados, e mais de 70% dos aeroportos ficaram parecendo estufas de massas humanas abarrotadas, num misto de fila de INSS, acampamento de MST e portaria de Maracanã em dia de jogo – para ficar só nos exemplos brasileiros, povo com o qual simpatizo muito, por não ter ainda se manifestado contra mim.

Sei também que as grandes entidades internacionais andaram perdendo o sono pensando em como contornar o prejuízo das companhias aéreas, estimado em absurdos 200 milhões de dólares por dia de paralisação (!). 

Mas o que todos esquecem quando maldizem o meu nome e a erupção causada por anos e anos de dióxido de enxofre reprimido, é o óbvio ululante: eu sou inocente. Quando nasci, há milhões de anos atrás, nos hot-spot de potencial destrutivo, eles não estavam lá: políticos, aeroportos, turismo europeu, caos urbano. Quando eu acordei, lá estavam eles: políticos, aeroportos, turismo europeu, caos urbano e dedos em riste apontados em minha direção.

A erupção do meu conterrâneo Laki, em 1783, lançou mais de 120 milhões de toneladas de gases na atmosfera e não me lembro de ele ter sofrido o que sofro agora – o que é, sejamos francos, uma sucessão de disparates. Afinal, até mesmo a minha composição ortográfica parece incomodar as autoridades e jornalistas, que, sob motim infundado e descompromissado com a ética, começaram uma campanha de exportação de vogais para a Islândia, visto a grande dificuldade de pronúncia do meu nome. Se não acreditam, vejam vocês mesmos.

Pensem em minha indignação neste momento, ao ter de engolir todos esses impropérios após 200 anos da mais serena calmaria. Ouvi até alguns apocalípticos chamando de “fúria da natureza” o meu ressurgimento, ou rotulando o acontecimento de “vingança”. Posso ser feito de magma, gases e partículas quentes, mas tenho sentimentos.

 

Preconceitos a parte, basta fazer uma busca pelo meu nome no Google para perceber que nem só de opiniões fervorosamente reacionárias é feito o mundo. Teve até o caso de um piloto do GP da Espanha que deu pulos de alegria ao saber que acordei e indiretamente adiei a ida de sua equipe para o Japão, fato que lhe rendeu mais tempo de recuperação e treinamento. Teve até quem – no melhor estilo “se a vida te dá limões” – aproveitou a oportunidade para criar a mais nova bizarrice do didatismo: workshop de vulcanologia avançada, cuja primeira lição é “Agora que já sei que o vulcão dos Açores se chama Capelinhos vou memorizar o da Islândia”.

Houve também ambientalista que abriu sorriso de orelha a orelha quando acordei. A liberação das minhas poeiras e aerossóis na atmosfera, tão massacrados pela grande mídia, converteu-se em esperança para o aquecimento global. Isso acontece porque os meus gases chegam até a estratosfera e provocam fenômenos físico-químicos que criam uma camada protetora de partículas esbranquiçadas que protegem parcialmente a Terra da radiação solar. Mas era só eu ficar feliz pelo reconhecimento tardio de minhas qualidades, que algum cientista vinha irromper em minha alegria, dizendo que minha erupção não foi suficiente para resfriar o clima – o que é, claro, uma grande injustiça. O que aconteceu nas Filipinas em 1991 – aquele puxa-saquismo pra cima do Monte Pinatubo (lembram-se?) foi uma grande coincidência. E falo disso com propriedade, conheço o Pinatubo, aquele sacana, ele nunca fez o tipo salvador do Humanidade.

Preciso dizer também que, mesmo sentindo-me profundamente lesado por esse tipo de humilhação, nunca foi obrigação minha minimizar o aquecimento da Terra. Foi o homem que arrumou essa encrenca, pois ele que a resolva. Quando eu nasci, além dos políticos, aeroportos, turismo europeu, caos urbano e dedos em riste, também não estava lá o aquecimento global antropogênico (este mesmo, causado por vossa senhoria que me lê agora). Até mesmo o Hekla, camarada de longa data, teve seu nome envolvido na catarse meteorológico-apocalíptica: em virtude do medo de novas erupções, estão acordando até quem está quieto há 600 anos. Isso porque o megalomaníaco Katla ainda não se manifestou aos temores que as forças internacionais têm manifestado ao seu respeito. Feliz mesmo é o Monte Olimpus, que está lá em Marte.

Em suma: peço apenas que, por Vulcano, deixem-me silenciar as minhas cinzas de erupção em paz. Quem sabe outros 200 anos de ausência despertem opiniões mais humanísticas a meu respeito. Gleðileg súmar! Amém.


* foto: brynjar gauti



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escrito por Renata Penzani - May 18, 2010
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