Tudo o que pensava de mais terrível, só ele escutava. Complacente, repetia as últimas sílabas, cabeça abanando em sinal de consentimento. Ela queria gritar, ferir e matar, e ele a acalmava, embalando as suas palavras de fúria no mais plácido dos colos. O ritmo de sua calma era antídoto para os piores sentimentos.
As palavras dela saindo da boca como balas enfurecidas em busca do primeiro alvo, e ele só sabia ser ternura, o tom de voz sutil, diminuto, decrescente. Dizem que o que somos de pior é o que, de verdade, nos define, e o que somos de melhor é a somente a consequência desse outro lado, que se sabe falho, reticente e absurdo. Ela sabia disso. Ele também. Quem só conta as virtudes esperando glorificação está aniquilando qualquer chance de honestidade: é deixar os nossos defeitos no quintal de nós mesmos.
Um dia, ela entrou em casa, a cabeça atulhada dos pensamentos mais nebulosos. Queria ir embora, desligar-se de tudo. Mas, naquele dia, ela não esbravejou, não espalhou pelo vento as costumeiras palavras amargas dos dias ruins. Sua dor estava cansada, e preferiu silenciar. E naquele dia, ele não a amparou, não consolou sua amargura. Ela ficou sofrendo quieta, sem entender muita coisa. Vai ver que é porque o Eco é um pouco surdo. Ou a angústia muito silenciosa