Sempre achou estranho ouvir a mãe dizer “sardinha”, “batatinha” e “pimentão”. Na escola, conheceu o aumentativo e o diminutivo. Sabia também o que acontecia quando uma palavra não sofria nem uma coisa nem outra: eram os três degraus que a palavra podia subir. Mas, muito estranhamente, “pimentão” era o degrau do meio, não diminuía nem aumentava coisa alguma, afinal, pimentas grandes eram chamadas de pimentas grandes, e não de “pimentão”. “Sardinha” também não significava o que sugeria sua lógica infantil, mas essa era mais fácil de adivinhar. “Sardinha”, retirada a terminação, se transformava em “sarda”, e ela sabia bem que sarda nada tinha a ver com comida, ao contrário de pimenta. “Sarda” confundia com “sarna”, e nenhuma das duas coisas a mãe guardava na cozinha. Ia nesses pensamentos confusos até sentir as idéias embaralharem. Mais tarde, já adulta, não se preocupou mais com esses pequenos mistérios da existência. Passou a comer sardinhas e pimentões sem grandes angústias. Consentiu que refletir sobre as coisas não muda o seu gosto: foi uma sucessão de alívios. Mas os adultos vivem num tempo diferente dos pequenos, um tempo em que as pessoas não sentem o gosto da sopa, mas sempre reparam que o prato está quebrado. Felizmente, em alguma cozinha, alguma mãe é chateada por uma sucessão de porquês.